sábado, 16 de setembro de 2017

Reflexão sobre a tensão na península coreana

Mais um teste de míssil realizado pela Coréia do Norte nesta semana intriga a comunidade internacional. Assim como um animal arisco e selvagem, os norte-coreanos sentiram-se ofendidos pelas manobras militares realizadas pelos EUA e Coréia do Sul. O estopim para a elevação (novamente) no tom bélico deveu-se às novas sanções impostas pela ONU - o que de fato não deverá ter grandes impactos para a ditadura comandada por Kim Jong-un. A questão que aflige aqui é quais medidas tomar tendo-se em vista que alternativas diplomáticas estão se esgotando.

O fato é que estamos diante de um impasse político que vai muito além de questões ideológicas, regido por duas figuras inconsequentes: de um lado temos Trump e sua artilharia midiática que atinge minorias e todos aqueles que pensam diferente; do outro lado temos um coreano mimado de uma família de ditadores que utilizam o comunismo como desculpa para se manterem no poder. A política adotada por ambos é a do medo, feita por imposições irracionais para favorecimento próprio. 

Nos EUA a democracia joga a favor do mundo, servindo como contrapeso diante das ações impulsivas de um presidente que contraria a lógica e a ciência. Na Coréia do Norte temos uma pessoa extremamente calculista liderando um país isolado do restante do mundo que busca se manter no comando a qualquer custo para evitar o mesmo fim de seus similares, como a queda de Saddam Hussein (ditador iraquiano derrubado pela intervenção americana na busca por armas químicas que nunca existiram). Assim se desenha o mapa geopolítico, trazendo em sua configuração uma peculiaridade característica dos tempos de Guerra Fria.

Ditadura é ditadura, independe do lado que se adota (esquerda ou direita) ou da cor de sua bandeira (azul ou vermelha). Após a queda da União Soviética houve uma natural decadência da influência socialista cujos liberais estadunidenses buscaram utilizar como apoio para a sua expansão imperialista interferindo na realidade de outras nações. Com os atentados de 11 de setembro de 2001 tal imposição de agenda diante do cenário internacional tornou-se mais evidente. O erro dos EUA foi em desconsiderar a influência ainda existente, sobretudo no Oriente, da Rússia e da China (país este com maior crescimento econômico, contrariando a lógica ideológica ocidental). Assim sendo, temos um xadrez político complexo com múltiplos interesses.

Analistas buscam uma alternativa para tal problematização. Chegam até a apontar uma elevação das sanções ao regime ditatorial norte-coreano. Pois bem, partindo do exemplo cubano, sanções não farão a Coréia do Norte sucumbir do modo que imaginam. Mas temos um diferencial para com o país asiático: eles possuem armas nucleares além de diversos mísseis de curto, médio e longo alcance. A Coréia do Norte é um país forjado pela guerra, sobretudo desde a Guerra das Coreias (1950-1953). O armistício assinado foi só uma pausa para reagrupar e aperfeiçoar o poderio bélico para os norte-coreanos. Desse modo, qualquer erro de cálculo de ambas as partes poderia custar a vida de milhares de inocentes. A primavera árabe mostrou que uma intervenção estrangeira pode sair o oposto do planejado - basta ver o caso da Síria cuja tentativa de retirada de Bashar al-Assad causou o crescimento do Estado Islâmico, sendo necessário apoio da Rússia onde, no cenário atual, a manutenção do ditador sírio ainda é melhor do que o domínio dos extremistas muçulmanos do Estado Islâmico. Indo mais distante, outro exemplo de intervenção que não saiu como o planejado foi a invasão da Baía dos Porcos em Cuba pelos EUA (1961).

Continuando no campo hipotético imaginário, o melhor caminho seria o entendimento entre coreanos. Parece-me óbvio, com uma pitada utópica, mas o pensamento oriental é característico e tentar moldá-lo aos costumes ocidentais é um erro. Tal modelo ideal parece-me inviável devido ao ditador norte-coreano que atualmente está no poder. Desse modo, a saída para a tensão na península norte-coreana seria o entendimento por terceiros promovido por Coréia do Sul, Japão e China. A participação de Trump no processo decisório seria um tiro no pé: primeiro pelo seu extremismo nacionalista e segundo por não entender a visão de mundo dos orientais. Impor a sua visão é o mesmo modelo de imperialismo aplicado pela Europa no processo de colonização.

Outra alternativa viável seria a contínua exclusão da Coréia do Norte do cenário internacional até a ascensão de um novo líder. Neste caso, o próximo líder poderia ter um perfil mais moderador, mas estaríamos reféns do acaso esperando por um entendimento, assim como ocorrera com Cuba (na época da Barack Obama). Ainda nesta hipótese, um outro líder não mudaria o fato do país possuir armas nucleares. Uma mudança cultural promovida por alguém moldado nos ensinamentos de uma doutrina ditatorial parece-me difícil de ser atingida. 

De qualquer forma, a continuação das divergências políticas por meio da guerra parece ser o pior cenário. Alguns analistas argumentam sobre uma operação militar estratégica para a execução do líder coreano. É uma alternativa viável, tendo-se em vista que com a execução dos principais líderes a Coréia do Norte poderia estar livre da repressão. Mas a cultura do medo militarizado está tão enraizada no povo norte-coreano que qualquer falha na operação poderia resultar em catástrofe, resultando imediatamente em conflito local, podendo se expandir a nível mundial. Como dito, não existe solução fácil para tal problema. Contudo, o melhor caminho é a prevenção e o planejamento estratégico. Medidas defensivas são necessárias, mas medidas ofensivas são arriscadas e devem ser extremamente detalhadas e precisas, pois a reação será imediata e energética.

Mapa da região da península coreana:

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Fonte: https://cardapiopedagogico.blogspot.com.br/2013/05/peninsula-coreana-roda-de-leitura-e.html

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