O ensino é praticamente uma unanimidade nas agendas dos cidadãos e candidatos aos cargos eletivos. O discurso é realmente comovente, mas é necessário ir aos fatos, ser concreto e pragmático. A proposta vigente oriunda do atual governo federal é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) vinda de cima para baixo por meio de Medida Provisória (MP) do excelentíssimo e ilegítimo presidente como parte de suas mirabolantes reformas para o Brasil. A mesma é vendida pela equipe do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) como a salvação da nação. Cuidado com as propagandas, pois tal urgência pode ser um verdadeiro retrocesso escolar.
A proposta visa reformar o Ensino Médio propondo uma flexibilização da grade curricular atual com vistas a permitir ao estudante escolher uma área de conhecimento para aprofundar os estudos, conforme descrito no Portal do MEC (Ministério da Educação). Assim sendo, o governo propõe tornar obrigatórias somente as disciplinas de língua portuguesa e matemática nos três anos do Ensino Médio dividindo as demais matérias em eixos que serão ofertados aos alunos.
Pois bem, o primeiro questionamento que se faz, dentro da própria descrição do MEC, é qual seria o aprofundamento? Aprofundamento em quê, levando-se em conta que a proposta é uma subtração das disciplinas e não uma adição de outras matérias? O cerne do questionamento é uma questão lógica: se o ensino é tão importante, então por que cortar disciplinas ao invés de acrescentar opções para assim oferecer um verdadeiro aprofundamento do conhecimento?
Fonte: http://www.sinteps.org.br/noticias/946-mp-746-2016-porque-a-reforma-do-ensino-medio-precisa-ser-combatida
Outra pergunta que se coloca é qual o motivo da pressa do governo em impor tais reformas goela abaixo sem um amplo debate entre ONGs voltadas ao ensino, escolas públicas e privadas, empresas particulares que poderiam apoiar com recursos (financeiros, materiais e humanos), instituições públicas, governos municipais e estaduais? Se é para o bem geral da nação, então por que não ouvir ampla e diretamente os principais envolvidos (pais, alunos e professores)? A urgência em se aprovar a BNCC é maior do que a urgência em se discutir e reformar verdadeiramente o ensino médio brasileiro.
Sobre os itinerários propostos há uma divisão em cinco eixos: Linguagens, Exatas, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Ensino Profissional. Porém, as escolas serão obrigadas a ofertar apenas um itinerário. Ou seja, se a escola do aluno ofertar apenas Exatas e o mesmo desejar Humanas, ele (aluno) terá que se descolar até uma escola que tenha a grade desejada (isso se tiver vaga disponível). A lei também não esclarece quando as outras disciplinas (não obrigatórias nos três anos do ensino médio como física, química, história, geografia, biologia, etc.) serão cursadas. Note caro leitor que se trata de um projeto de reforma incompleto, repleto de buracos.

Fonte: http://www.pensamentoradical.com/2017/09/trabalho-hfe-3-ano-3-bimestre-2017-iecd.html
A carga horária obrigatória praticamente dobrará visando estimular o ensino integral. Até aí sem nenhum problema. Entretanto, a lei não determina que todas as escolas terão o Ensino Médio Integral, inclusive sendo discutido pelo CNE (Conselho Nacional de Educação) o Ensino à Distância (EAD) para cerca de 40% da carga horária. Pergunta: conhecendo o país e suas deficiências, será que todos os alunos terão acesso a computadores e internet para realizar disciplinas EAD? Será que haverá tutores qualificados por todo o Brasil tendo-se em vista que a proposta busca substituir licenciaturas e especializações por notório saber? Em pleno período de desemprego a proposta do governo visa desempregar professores.
Há de se pensar também no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), pois a Base Nacional Comum Curricular não especifica como será realizada tal avaliação. Vale aqui lembrar que atualmente o ENEM é realizado em dois dias cujas provas são divididas por disciplinas e não por eixos. Caberá às escolas, municípios e estados se adequarem sobre qual (is) eixo (s) será (ão) ofertado (s) e se o mesmo será em tempo integral ou EAD. Ué, mas não era para ser uma Base Nacional Comum, uniforme no país, unificada, capaz de centralizar o currículo e oferecer igualdade em oportunidade aos estudantes? Com tantas brechas na lei o assunto tornou-se uma verdadeira zona, assim como as demais reformas propostas pelo governo usurpador do MDB na esfera federal.
Fonte: http://espacosocialista.org/portal/2016/11/jornal-95-reforma-do-ensino-medio-intensificar-a-competicao-e-abalar-a-solidariedade-para-entregar-o-publico-ao-privado/
De onde virão os recursos? Quem pagará a conta tendo-se em vista que a União vem cortando verbas destinas à pesquisa e tecnologia ao longo dos últimos dois anos devido à crise? Está previsto um investimento de R$1,5 bilhão até 2018 do governo federal. De onde virá essa verba, já que o próprio governo mal consegue administrar as contas públicas? Os alunos terão café da manhã, almoço, café da tarde? E os professores? Impor um sistema de ensino privilegiando determinadas disciplinas é hierarquizar o conhecimento conforme interesses obscuros, fracionar a inteligência, alienar o foco.
Não seria interessante manter as disciplinas que aí estão e adicionar novos eixos como forma complementar? Não seria interessante ofertar também aulas de artes marciais, xadrez, música, noções de economia familiar, manutenção básica residencial, noções de direito, introdução à ciência política, etc.? Não seria interessante concatenar o Ensino Médio ao ingresso no Ensino Superior privilegiando assim a meritocracia construída ao longo de três anos ao invés de submeter isso a dois dias de provas? Que é preciso melhorar o ensino de um modo geral no Brasil não se discute; o problema é o modo de como as decisões estão sendo tomadas, sem ampla participação social.
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