Alguns amigos pediram a minha opinião referente à condenação do ex-presidente. Sendo assim, adiarei o tema que havia planejado para refletir sobre a condenação em segunda instância do Lula. Na verdade, não há muito mais a ser dito: trata-se de um político que fora julgado e condenado. Desse modo, o processo deve seguir pelas vias legais onde agora cabem pouquíssimos recursos à defesa do mesmo devido à unanimidade do TRF4 não somente sobre a confirmação da condenação, mas também pelo aumento da pena, agora estipulada em doze anos.
Simples assim: houveram denúncias, existem provas; contra fatos e dados não existem argumentos. Provavelmente o ex-presidente ficará inelegível para as eleições deste ano, além de correr sério risco de ser preso. A grande repercussão do caso é compreensível pelo destaque da figura dentro do cenário político nacional há pelo menos trinta anos, mas não há nenhuma novidade em jogo. Os recursos estão indo pelo caminho já previsto e se não houver uma mudança radical assim continuará. Duro é não ter diploma para cela especial...enfim. O que chama a atenção no caso em si são três fatores distintos da condenação: a celeridade no processo devido às eleições, o futuro do partido e a euforia popular. Vamos por partes.

Fonte: https://www.opovo.com.br/divirtase/2017/05/internautas-criam-memes-com-depoimento-de-lula-a-moro.html
Sobre a celeridade no processo há de se destacar dois lados da moeda: (a) o fator positivo em verificar que a justiça é capaz de trabalhar de modo rápido e eficaz (quando convém), e assim o fez muito devido ao fato do então acusado ser um dos principais nomes para a cadeira presidencial nas eleições deste ano; faz-se de interesse público que os candidatos estejam de acordo com a justiça para ocuparem cargos eletivos; (b) o fator preocupante é tal celeridade processual ser pontual e restrita, não atingindo os demais candidatos a cargos públicos eletivos que aí estão, com denúncias e processos, não só almejando a presidência, mas também o Congresso Nacional e as cadeiras de governadores.
Como exemplo para embasar a afirmação acima basta recordar do impedimento da ex-presidente Dilma: foi muito bonito e comovente toda a mobilização feita; pena que o impedimento restringiu-se ali, deixando nomes como Temer, Jucá, Moreira Franco, Sarney, Aécio Neves, Geraldo Alckmin, Renan Calheiros e tantos outros livres para voltarem a seus redutos e concorrerem novamente para as eleições de 2018. Um verdadeiro teatro de vampiros. O atual presidente Michel Temer inclusive limitou gastos destinados à educação e saúde para os próximos vinte anos, mas comprou o voto de diversos congressistas para afastar de si o impedimento e provável condenação posterior. Garotinho, Rosinha Matheus, Eike, Jacob Barata Filho, Adriana Ancelmo, Jorge Picciani e tantos outros estão aí para alertar e provar que mesmo uma eventual condenação pode terminar em pizza.

Fonte: https://pt.memedroid.com/memes/detail/1864417
Já o PT provavelmente deve estar passando por dias confusos e de incerteza. O Lula foi e ainda é a personificação de tal partido desde a sua fundação. Ter o seu maior ícone em tamanho embaraço faz do futuro próximo um completo desconhecido. Não só isso: há também a crise de identidade e até mesmo existencial. Ficar ou ir, lançar outro nome ou boicotar as eleições? Estes são tais dilemas que os petistas terão que enfrentar nos próximos dias. Aliados antigos como PDT e PCdoB já sinalizam candidaturas próprias. O lulismo é um verdadeiro organismo vivo dentro do próprio partido e agora eles terão que conviver pela primeira vez em décadas sem o seu principal líder. Tal fato só tende a fragmentar a centro-esquerda brasileira ou, se preferir, a chamada social-democracia nacional.
Sobre a euforia do povo não há muito o que dizer: nada como um carnaval antecipado não é mesmo caro leitor? Os três votos no julgamento foram encarados como três gols em final de campeonato e lá estão os nacionalistas com a camisa da CBF no peito comemorando uma pátria limpa e honesta. Doce ilusão. Não custa nada sonhar não é mesmo? Se o problema brasileiro fosse apenas uma pessoa ou um partido realmente estaríamos bem. O preocupante é que o povo brasileiro continua procurando heróis e vilões, esquecendo-se que tanto a história quanto a política são feitas de pessoas.

Fonte: https://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/moro-e-aecio-uma-foto-para-a-historia
Não precisamos de um novo herói, mas sim de uma pessoa séria e competente. Enquanto isso não ocorrer continuamos no risco de criar paradoxos na realidade. É fato que a candidatura do Lula agora torna-se praticamente ficção, o que é bom, já é um começo. Mas deve haver uma limpeza geral dos corruptos, reformulação partidária e até sistêmica. Dificilmente isso acontecerá até outubro e os nomes que restam também causam desconforto e incerteza quanto a uma melhora factual do país. Gostaria de soluções simplistas, mas a complexidade do caso exige bem mais do que condenações pontuais. Enquanto isso, a esperança continua...
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