quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Reflexão sobre a corrida eleitoral 2018

O Brasil está às vésperas do início do horário eleitoral no rádio e na tv. É bem verdade que a política não cessou nos últimos anos. Arrisco a dizer que ainda se vive as consequências de fatores que ajudam a explicar o contexto nacional atual: (a) manifestações populares e agitações de movimentos sociais de 2013 em diante; (b) crise econômica; (c) impeachment da Dilma Rousseff; (d) Lava Jato. Dentro de cada um dos itens citados acima existem subitens que trazem um maior detalhamento do cenário conturbado atual como a polarização política, a apatia do cidadão mediano, as discussões online, a falência dos estados e municípios gerando crises no sistema público, sobretudo naquilo que é sua base (segurança, educação e saúde). 

A eleição de 2018 se difere da anterior (2014) já na duração, pois houve uma redução de 90 para 45 dias, conforme o que ocorrera nas eleições regionais de 2016. Há também restrições quanto ao financiamento (doações) de empresas (pessoas jurídicas), fruto direto do trauma da corrupção escancarada pela operação Lava Jato. A poluição nas ruas tende a ser menor, pois não deverá haver placas expostas nas ruas. Entretanto, a poluição visual e sonora via redes sociais se ampliou exponencialmente. As pessoas agem freneticamente como se estivessem em uma arquibancada virtual de algum clássico de futebol agindo por impulso, de modo fanático com a propagação de propagandas e acusações repletas de fake news (a exemplo do ocorrido nas últimas eleições estadunidenses) ao invés de dialogarem.  

Bússula com bandeira do Brasil e a palavra "voto"
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42313908

Muito se fala sobre a necessidade de mudança, mas não é o que as pesquisas mostram. A começar pelos quadros dos partidos com velhos nomes (ou sobrenomes) do sistema público e político nacional. O fato do sistema eleitoral só permitir candidaturas via partidos é uma forma de aprisionar os cidadãos. Contudo, as contradições não se restringem às instituições. Trata-se de uma nítida divergência no seio da própria sociedade aonde a mesma população que condena a corrupção pretende eleger os mesmos candidatos/partidos que aí estão há anos.

Em um cenário aonde os dois primeiros candidatos para o cargo de presidente da república são um ex-presidente (Lula) condenado pela justiça em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro e um réu com tendências tiranas, preconceituosas e segregadoras (Jair Bolsonaro) que em 27 anos como deputado só aprovou dois projetos no Congresso e ainda é suspeito de empregar funcionária fantasma em seu gabinete. É um claro sinal de que algo está errado. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço? 

A problemática maior não está no sistema ou nos partidos. Afinal, nenhum político está ali por acaso, todos passam pelo crivo das urnas; logo, são eleitos pela população. O fato de boa parte dos líderes das pesquisas, independente do cargo, serem velhos conhecidos envolvidos em denúncias de má gestão, desvios de verbas e apropriação indevida de recursos só mostra que as pessoas, cidadãos que compõem a sociedade, estão doentes, seja por falta de informação, seja por falta de interesse, seja por falta de conhecimentos cognitivos, jurídicos e/ou políticos. Talvez seja o caso em que a paixão fale mais alto do que a razão e isso realmente é um risco. Tão doentes ao reprovar explicitamente todo o cenário que aí está ao mesmo tempo em que mantêm o status quo.

Resultado de imagem para ibope eleições 2018
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/08/20/pesquisa-ibope-lula-37-bolsonaro-18-marina-6-ciro-5-alckmin-5.ghtml

Outra temática de extrema relevância são as candidaturas para os cargos proporcionais (cujos candidatos são eleitos por meio do quociente eleitoral): deputados estaduais e federais. É natural que em um sistema presidencialista como o brasileiro, os cargos majoritários (cujos candidatos são eleitos por meio da maioria dos votos, seja relativa, seja absoluta) como presidente, governador e até mesmo senador possuam maior destaque pela facilidade de compreensão da população (pois vence quem obtiver a maioria dos votos) e também por certa tradição patriarcal inerente à cultura histórica brasileira. Entretanto, os deputados são fundamentais para a manutenção do chamado presidencialismo de coalizão e no repasse de verbas públicas para os estados e municípios, além das atribuições legislativas e de fiscalização da administração pública.

A relação entre eleitores e eleitos é um ciclo contínuo. Você é o reflexo do meio em que vive. Por vezes nos debates é notório o despreparo de candidatos sem uma plataforma de governo definida "jogando para a torcida" (os telespectadores). Não se trata de uma brincadeira que vence quem tiver mais curtidas ou compartilhamentos, mas do futuro da nação. O processo de avaliação criteriosa e reflexão das opções disponíveis é fundamental para a construção de um país melhor.

São 513 vagas disponíveis para deputados federais, 54 vagas para o senado, 01 vaga para presidente, 01 vaga para governador, além das vagas para deputados estaduais que variam de acordo com cada estado. Isso sem contar os vices (outro componente importante a ser observado). E todos eles, sem exceção, chegam ao poder por meio do voto. O eleitor terá direito a um voto para deputado estadual, deputado federal, governador, presidente e dois votos para senadores. 

Fonte: http://agendacapital.com.br/eleicoes-2018-presidenciaveis-devem-fechar-aliancas-perto-da-data-limite-imposta-pelo-tse/

É necessário esclarecer aqui eventuais dúvidas e alguns mitos que eleição após eleição aparecem nas conversas informais dentro do cotidiano das pessoas: (a) votos nulos não anulam uma eleição, mesmo sendo maioria. São computados somente os votos válidos; (b) os votos brancos não vão para nenhum candidato; (c) não é possível saber em quem o eleitor votou, mesmo após o período eleitoral; (d) quem não votou na última eleição não fica automaticamente impedido de votar; (e) é possível haver prisões durante as eleições sim, desde que o ato do crime seja flagrante; (f) nos casos de voto proporcional nem sempre é eleito aquele candidato que obteve mais votos; (g) a urna eletrônica não é ligada com a internet ou qualquer outro meio de transmissão de dados.

Não adianta votar pensando somente no agora levando em consideração apenas as aspirações particulares. Voto é construção, planejamento de no mínimo quatro anos cujas marcas podem se perpetuar (positiva ou negativamente) com o passar do tempo. Promessas sem propostas concretas e transparentes são apenas palavras ao vento. Pesquise a carreira dos candidatos, os atos (e não apenas a retórica), pesquise o histórico do partido, os prós, os contras, o programa de políticas públicas, as especificações de onde virão os recursos, os efeitos de cada proposta. Em média, o tempo de votação por meio da urna eletrônica leva um pouco mais de um minuto, mas o processo de escolha pode durar oito longos anos para senadores e quatro anos para os demais. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Reflexão sobre ditaduras

Ditaduras, caro leitor, assim mesmo, com "s" no final. Em meio à disputa eleitoral dentro do espectro político existe um modelo (uma sombra) capaz de unir posicionamentos antagônicos transportando diferenças para um plano secundário: o regime ditatorial. O motivo pelo qual o título está no plural remete à existência de diferentes configurações dentro do próprio autoritarismo cuja pluralidade impositiva resulta em um mesmo ponto comum: a estagnação. Ditaduras deságuam no mesmo oceano da ruptura evolutiva. 

De um modo geral, ditadura é um regime de governo que centraliza todos os poderes do Estado, seja em um indivíduo, grupo político ou partido; portanto, sem participação social. Há concentração de poder em uma só instância, tornando tanto a sociedade quanto o Estado reféns. Pode-se até definir ditadura como a captura e/ou extinção das instituições; ou seja, a doença que leva a democracia ao óbito. É possível acrescentar, segundo o site Significados, que em sentido figurado a palavra ditadura serve para descrever uma situação em que alguém exerce uma autoridade absoluta. 

Desse modo, o balanceamento teórico oriundo da democracia entre executivo, legislativo e judiciário é quebrado por um regime totalitário cuja ordenação é a vontade única e exclusiva dos detentores do poder, também conhecido como tirania (com base nas classificações platônicas e aristotélicas). Tal soberano é a personificação da lei e não aceita o contraditório. Assim sendo, não há espaço para pensamentos divergentes, manifestações ou qualquer tipo de reivindicações. O opositor não passa de um alvo a ser exterminado para o domínio do soberano. Sem diálogos, sem deliberações, apenas uma verdade absoluta que reduz a própria sabedoria humana.

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Fonte: http://www.livrosepessoas.com/2014/11/03/15-artistas-e-obras-que-foram-censuradas-na-ditadura-militar/

Em tempos em que alguns grupos clamam por ordem e progresso demonstrando apoio explícito às ditaduras deve-se ter cautela, pois a mão que afaga é a mesma que afoga. Se ditadura é a imposição da vontade unilateral entre os atores envolvidos na luta pelo controle total, então pode-se estabelecer uma tipologia: militar, civil-revolucionária, institucional ou dogmática. Ditaduras são um fim em si mesmas, pois levam a um mesmo processo de afastamento, desinformação (manipulação dos fatos e versões), controle rígido e, por fim, ignorância em massa. Entretanto, é possível esmiuçar as partes para que se possa entender o todo.

A ditadura militar é a mais conhecida e o próprio nome já diz tudo: a tomada de poder por meio da organização de militares. Neste caso não há o que estender na explicação, sobretudo pela experiência vivida no Brasil e América Latina como um todo. A ditadura civil-revolucionária é formada por cidadãos comuns que tomam o poder por meio da revolução armada como o ocorrido na Revolução Francesa (1789), Revolução Russa (1917) e Revolução Cubana (1959). A ditadura institucional é aquela que usa das regras, leis, cargos formais ou mesmo apelo popular para ampliar os próprios poderes dentro de um suposto cenário de legalidade e/ou legitimidade como é o caso da ditadura bolivariana da Venezuela. A ditadura dogmática é aquela que se baseia no poder divino cuja principal característica é a união entre política e religião, como o caso do Irã e da Arábia Saudita.

Ditadura Militar
Fonte: http://www.cartaeducacao.com.br/cultura/carta-professor/cinzas-lembrancas/

Geralmente associa-se às ditaduras o caráter militar, o que particularmente discordo. Ciente de que historicamente o uso das armas por meio de guerras e revoluções é o modo mais característico que corresponde às ditaduras, há também a ditadura institucional sendo obtida por golpes de estados orquestrados sem a necessidade de tiros ou uso da força com a presença de tanques nas ruas, pautando-se ora pela defesa dos direitos, ora pela omissão de deveres. Como dito anteriormente, ditadura é ditadura independentemente da cor da bandeira. 

A ditadura teve sua origem como tal no Império Romano quando, em situações de extrema urgência, a república dissolvia-se momentaneamente para a concentração dos poderes em uma só pessoa para a resolução dos problemas e, após a normalização da situação, o poder republicano era restabelecido em Roma. O ditador era designado pelos cônsules e seu período de atuação não poderia ultrapassar seis meses sendo que o mesmo responderia por seus atos perante a lei tendo que se justificar após o período da ditadura. Mas o poder corrompe e após o século II a.C. as ditaduras perderam seu caráter legal, posteriormente resultando na queda do império. Séculos depois é possível citar o absolutismo monárquico, ditaduras exercidas por reis.

 
Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/210021-1

Costuma-se associar as ditaduras aos movimentos de esquerda, claramente tratando-se de uma afirmação inverídica. Como classificar o Império Romano? O absolutismo europeu, baseado no mercantilismo, ocorreu na fonte do capitalismo. O tema foi motivo de divergência entre anarquistas (contrários à ditadura) e comunistas (favoráveis). Ouso afirmar que a chamada ditadura do proletariado foi um dos motivos que levaram à queda do comunismo ao redor do globo. O que dizer das ditaduras de mercado livre na África e no Oriente Médio?

O que as ditaduras possuem em comum mesmo apesar dos diferentes contextos? O fator que une Coréia do Norte, Arábia Saudita, Síria, Omã, Egito, Irã, Venezuela e tantas outras ditaduras que existiram ou ainda existem é a estagnação. Parados no tempo, imersos no unilateralismo e isolados do restante do mundo para que os seus ditadores possam manter o controle e a manutenção do poder por meio do autoritarismo governamental. Volto a dizer: Estado e sociedade reféns, parados no tempo, estagnados seja socialmente, politicamente e/ou economicamente. Pedir por ditaduras é atestar a própria incompetência na resolução de problemas, é abdicar da capacidade de diálogo e da construção cidadã.

Estagnação, submissão e ignorância. Não é necessário expor mais nada.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Reflexão sobre a influência emedebista na política nacional

Em uma sociedade tida como democrática, neoliberal, capitalista e globalizada seria comum a concorrência e consequente alternância de poder em prol da competitividade. Entretanto, em uma oligarquia representativa como a brasileira é possível constatar o monopólio de empresas dentro da esfera privada (nacionais como Petrobrás, JBS, Odebrecht ou internacionais como Coca-Cola, PepsiCo, montadoras automobilísticas, etc.) e a predominância de certos partidos dentro da esfera pública. O resultado é lógico: concentração de poder e desigualdade.

Dentro do âmbito político é necessário fazer um recorte temporal para que esta reflexão não se estenda demasiadamente. Pois bem, partindo do período de redemocratização até os dias atuais (1985-2018) é possível citar a relevância de três grandes partidos dentro do cenário brasileiro: PT (Partido dos Trabalhadores), PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Muito se fala da polarização entre esquerda e direita, azuis e vermelhos, petistas e tucanos, mas pouco se comenta sobre a influência emedebista na política nacional.

Tal predominância do MDB vem desde os tempos da ditadura militar (1964-1985) quando os militares dissolveram todos os partidos existentes criando um bipartidarismo nacional entre o partido do então governo militar ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e a oposição composta pelo MDB que aglutinou membros de outros partidos. Com o fim do militarismo este mudou de nome para PMDB e predominou como maior partido desde então. 

Fonte: http://www.caaraponews.com.br/noticia/88726/pmdb-volta-a-ser-mdb

Para comprovar a abrangência emedebista vamos aos dados: (a) 20 senadores são emedebistas de 81 cadeiras disponíveis sendo o maior partido da câmara alta com 25% do total; (b) 61 deputados federais são do partido sendo também o maior da casa - câmara baixa; (c) possui mais de 2 milhões de filiados tornando-se o maior partido do Brasil; (d) 7 dos governadores são emedebistas, o que representa 1/4 do total; (e) o atual presidente do país (cargo máximo do poder executivo) pertence ao MDB; (f) o presidente do senado Eunício Oliveira é emedebista; (g) o presidente da câmara Rodrigo Maia pertence ao Democratas, aliado do MDB dando totais subsídios para sua governabilidade; (h) em 2016 o MDB manteve sua hegemonia sendo o partido que mais elegeu prefeitos em todo o território nacional conquistando 1028 prefeituras.

Vale lembrar que desde a redemocratização nacional, o MDB sempre esteve presente no governo federal mesmo sem eleger diretamente um presidente sendo o fator decisivo na balança para a governabilidade do país em um contexto multipartidário que hoje conta com mais de 35 partidos. Tal capilaridade é notada tanto no poder executivo quanto no legislativo, atingindo os três entes federativos: municípios, estados e União. Trata-se de um partido que domina a política nacional, seja de forma direta por meio das eleições, seja nos bastidores. Portanto, é possível concluir que dentro do recorte temporal feito o MDB é a atual elite política brasileira mantendo o país ao centro, sem permitir que a nação descambe para os extremos. 

O depoimento envolve contrato que, segundo a Odebrecht e os investigadores, beneficiou o MDB em 2010, em suposto acerto com políticos do partido, no escritório de Temer em SP.
Fonte: http://domtotal.com/noticia/1260100/2018/05/operador-emedebista-confessa-crime-e-entrega-us-7-5-milhoes/

As principais ocupações dentro do MDB no Congresso Nacional, conforme o artigo "Elite Política Brasileira e a Manutenção do Poder por meio da Oligarquia Representativa: a Influência Emedebista" deste mesmo autor, são de profissionais autônomos e liberais como advogados, empresários e médicos, reforçando as tradições históricas da classe dominante do Brasil composta geralmente por empresários, juristas, latifundiários e militares. Nada de novo na exclusão do povo. Um exemplo é o fato que em 2016, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) apenas 14% dos brasileiros possuíam ensino superior completo. Seria a nata política tomando decisões (e omissões) para a manutenção do poder e desinformação da população gerando apatia e conflitos sociais. 

É possível notar a continuidade de tradições patrimonialistas, clientelistas, corporativistas e nepotistas reforçadas pelos partidos que predominam o cenário político brasileiro que se utilizam do pretexto de democracia representativa. Como alternativas para combater o desvio da política e do bem público estão: pesado investimento em ensino (qualificação pessoal e profissional) e a participação popular por meio de plebiscitos, referendos, voto não obrigatório e candidaturas independentes. Não há fórmula mágica, apenas vontade política em instalar uma democracia de fato no país e não essa desculpa teórica que aí está para obtenção de interesses privados fazendo da democracia pura demagogia popular de sofistas.

domingo, 5 de agosto de 2018

Reflexão sobre a Base Nacional Comum Curricular

O ensino é praticamente uma unanimidade nas agendas dos cidadãos e candidatos aos cargos eletivos. O discurso é realmente comovente, mas é necessário ir aos fatos, ser concreto e pragmático. A proposta vigente oriunda do atual governo federal é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) vinda de cima para baixo por meio de Medida Provisória (MP) do excelentíssimo e ilegítimo presidente como parte de suas mirabolantes reformas para o Brasil. A mesma é vendida pela equipe do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) como a salvação da nação. Cuidado com as propagandas, pois tal urgência pode ser um verdadeiro retrocesso escolar.

A proposta visa reformar o Ensino Médio propondo uma flexibilização da grade curricular atual com vistas a permitir ao estudante escolher uma área de conhecimento para aprofundar os estudos, conforme descrito no Portal do MEC (Ministério da Educação). Assim sendo, o governo propõe tornar obrigatórias somente as disciplinas de língua portuguesa e matemática nos três anos do Ensino Médio dividindo as demais matérias em eixos que serão ofertados aos alunos.

Pois bem, o primeiro questionamento que se faz, dentro da própria descrição do MEC, é qual seria o aprofundamento? Aprofundamento em quê, levando-se em conta que a proposta é uma subtração das disciplinas e não uma adição de outras matérias? O cerne do questionamento é uma questão lógica: se o ensino é tão importante, então por que cortar disciplinas ao invés de acrescentar opções para assim oferecer um verdadeiro aprofundamento do conhecimento?

Fonte: http://www.sinteps.org.br/noticias/946-mp-746-2016-porque-a-reforma-do-ensino-medio-precisa-ser-combatida

Outra pergunta que se coloca é qual o motivo da pressa do governo em impor tais reformas goela abaixo sem um amplo debate entre ONGs voltadas ao ensino, escolas públicas e privadas, empresas particulares que poderiam apoiar com recursos (financeiros, materiais e humanos), instituições públicas, governos municipais e estaduais? Se é para o bem geral da nação, então por que não ouvir ampla e diretamente os principais envolvidos (pais, alunos e professores)? A urgência em se aprovar a BNCC é maior do que a urgência em se discutir e reformar verdadeiramente o ensino médio brasileiro. 

Sobre os itinerários propostos há uma divisão em cinco eixos: Linguagens, Exatas, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Ensino Profissional. Porém, as escolas serão obrigadas a ofertar apenas um itinerário. Ou seja, se a escola do aluno ofertar apenas Exatas e o mesmo desejar Humanas, ele (aluno) terá que se descolar até uma escola que tenha a grade desejada (isso se tiver vaga disponível). A lei também não esclarece quando as outras disciplinas (não obrigatórias nos três anos do ensino médio como física, química, história, geografia, biologia, etc.) serão cursadas. Note caro leitor que se trata de um projeto de reforma incompleto, repleto de buracos.

Fonte: http://www.pensamentoradical.com/2017/09/trabalho-hfe-3-ano-3-bimestre-2017-iecd.html

A carga horária obrigatória praticamente dobrará visando estimular o ensino integral. Até aí sem nenhum problema. Entretanto, a lei não determina que todas as escolas terão o Ensino Médio Integral, inclusive sendo discutido pelo CNE (Conselho Nacional de Educação) o Ensino à Distância (EAD) para cerca de 40% da carga horária. Pergunta: conhecendo o país e suas deficiências, será que todos os alunos terão acesso a computadores e internet para realizar disciplinas EAD? Será que haverá tutores qualificados por todo o Brasil tendo-se em vista que a proposta busca substituir licenciaturas e especializações por notório saber? Em pleno período de desemprego a proposta do governo visa desempregar professores. 

Há de se pensar também no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), pois a Base Nacional Comum Curricular não especifica como será realizada tal avaliação. Vale aqui lembrar que atualmente o ENEM é realizado em dois dias cujas provas são divididas por disciplinas e não por eixos. Caberá às escolas, municípios e estados se adequarem sobre qual (is) eixo (s) será (ão) ofertado (s) e se o mesmo será em tempo integral ou EAD. Ué, mas não era para ser uma Base Nacional Comum, uniforme no país, unificada, capaz de centralizar o currículo e oferecer igualdade em oportunidade aos estudantes? Com tantas brechas na lei o assunto tornou-se uma verdadeira zona, assim como as demais reformas propostas pelo governo usurpador do MDB na esfera federal. 

Fonte: http://espacosocialista.org/portal/2016/11/jornal-95-reforma-do-ensino-medio-intensificar-a-competicao-e-abalar-a-solidariedade-para-entregar-o-publico-ao-privado/

De onde virão os recursos? Quem pagará a conta tendo-se em vista que a União vem cortando verbas destinas à pesquisa e tecnologia ao longo dos últimos dois anos devido à crise? Está previsto um investimento de R$1,5 bilhão até 2018 do governo federal. De onde virá essa verba, já que o próprio governo mal consegue administrar as contas públicas? Os alunos terão café da manhã, almoço, café da tarde? E os professores? Impor um sistema de ensino privilegiando determinadas disciplinas é hierarquizar o conhecimento conforme interesses obscuros, fracionar a inteligência, alienar o foco.  

Não seria interessante manter as disciplinas que aí estão e adicionar novos eixos como forma complementar? Não seria interessante ofertar também aulas de artes marciais, xadrez, música, noções de economia familiar, manutenção básica residencial, noções de direito, introdução à ciência política, etc.? Não seria interessante concatenar o Ensino Médio ao ingresso no Ensino Superior privilegiando assim a meritocracia construída ao longo de três anos ao invés de submeter isso a dois dias de provas? Que é preciso melhorar o ensino de um modo geral no Brasil não se discute; o problema é o modo de como as decisões estão sendo tomadas, sem ampla participação social.

sábado, 28 de julho de 2018

Reflexão sobre notícias falsas (fake news)

Não adianta relutar, pois está em todos os lugares. Fake news: notícias falsas que se propagam cada vez mais por meio da utilização de diferentes tipos de mídias sociais. Em questão de segundos a sementinha da discórdia pode infectar milhares de aparelhos eletrônicos (celulares, computadores, televisores, etc.) e mentes. Entretanto, se são falsas então não são notícias. Trata-se de um processo de desinformação que apresenta o padrão de tomar o papel de protagonista em períodos eleitorais. Tal questão se agrava em ambientes de polarização política e crises, sejam econômicas ou migratórias.

A internet é o principal caminho pelo qual percorrem as chamadas fake news. Com a ampliação do acesso à tecnologia e também devido aos avanços promovidos pela quarta revolução industrial que se inicia, uma simples matéria especulativa ou reportagem tendenciosa pode repercutir no país inteiro. O movimento é simples: as pessoas que compartilham da mesma visão de mundo abordada em tal "notícia" iniciam o processo de promoção e divulgação da mesma, geralmente sem qualquer critério mínimo de análise quanto a veracidade. Basta um click e pronto: está feita a disseminação de uma mentira. 

Fonte: https://leonardoconcon.com.br/cidade/geral/opiniao/nao-as-noticias-falsas/

As etapas seguintes são mais complexas e perigosas, pois apesar do compartilhamento ser rápido e fácil, tal ato é capaz de gerar um movimento em cadeia fazendo com que inverdades se transformem em  falsas verdades, ultrapassando assim o limite virtual para a realidade. Essa infestação pode ser danosa, assim como a contaminação de uma praga na plantação. Por vezes os debates se transformam em disputa por poder, brigas ideológicas sem qualquer base intelectual podendo chegar às vias de fato. Passa a ser a luta entre o "nós contra eles", aonde os envolvidos buscam a verdade absoluta sendo que nem a vida ou as ciências (conhecimentos comprovados com base em metodologias teóricas e empíricas) são capazes de trazer respostas definitivas e verdades supremas eternas.

Além da eventual anomia que a propagação de fake news pode causar, há também o risco de culpar inocentes, de julgar antes do julgamento jurídico, sem provas, sem direito à ampla defesa. Risco de caluniar grupos de forma incorreta e indevida, pode prejudicar famílias inteiras, acabar com a carreira de profissionais, difamar o próximo denegrindo sua imagem sem dó nem piedade, pode enganar uma população inteira por meio de mitos, mesmo não se tratando de fatos. A comodidade da internet torna-se um risco em si quando não se sabe utilizá-la. Mesmo em grandes corporações jornalísticas não há imparcialidade; portanto, necessita-se de discernimento e bom-senso ao ler determinada reportagem, pois nem sempre o que convém é o que realmente acontece.

boataria
Fonte: https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/02/mentiras-e-boatos-especialistas-apontam-os-riscos-do-compartilhamento-de-noticias-falsas

A dimensão e o peso de tal neologismo inglês rompe fronteiras transformando-se em um problema global. É o uso com fins desviantes da tecnologia refletindo a dualidade inerente da psique humana (a luta entre o bem e o mal). Mais do que isso, o processo de desinformação é crime, visa atingir as massas, criar agitação, separar ao invés de unir. O debate é válido e bem-vindo; porém, a busca incessante para se ter razão independente dos fatos é pura ignorância. A nomenclatura em si está incorreta, pois não se trata de notícias, mas de desejos absolutistas em se estar certo e comprovar isso por meio de compartilhamento, mesmo que não sejam fatos.

Há um fetiche oculto a ser satisfeito, independente de meios ou fins. Se não for para a afirmação própria de um pensamento ou posicionamento sobre determinado tema, então é para a obtenção de lucro, pois existem aqueles que divulgam e compartilham fake news cientes das inverdades em seu conteúdo, mas o fazem para conseguirem várias visualizações, curtidas e compartilhamentos para assim aumentarem o próprio faturamento, independente de questões morais. A participação está no emissor e também no receptor que se deixa levar sem investigar.

identificar fake news
Fonte: https://www.significados.com.br/fake-news/

Os produtores elaboram as mentiras conscientemente apelando para o emocional e para a ingenuidade dos membros de determinado grupo que se identificam com a matéria. A intensificação do fenômeno é consequência da própria demagogia política que passa ao público dados incorretos propositalmente ou mesmo abusam de mentiras em campanhas na tentativa de cooptar o maior número de cidadãos desinformados. Quem não se lembra da baixaria que foi a última eleição presidencial para o cargo de presidente, protagonizado sobretudo no segundo turno pelos então candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff? Quatro anos se passaram e cá estamos novamente.

Não se iluda caro leitor, a ceninha dos candidatos na corrida eleitoral já começou. A questão é quem vai mentir menos e formular uma agenda de governo coerente e factível. Enquanto isso, cabe às pessoas serem críticas no repasse de informações, duvidar, pois o ceticismo é fundamental na busca por fatos. É preciso levar em consideração a legitimidade da fonte, a credibilidade do autor, a coerência do conteúdo e se tal notícia possui algum tipo de comprovação. É como diz o ditado popular: quem conta um conto aumenta o ponto. Precisa-se verificar até qual ponto é verídico ou se é fruto da criação de mal-intencionados na manipulação da informação. 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Reflexão sobre o nepotismo

Do avô para o pai, do pai para o filho, do filho para o neto. Certos vícios são cíclicos, correntes nem sempre são fáceis de quebrar. Desde os tempos de Cabral até o Congresso Nacional, a história política do Brasil é composta por ilustres famílias, sobrenomes de peso que favorecem a própria linhagem na manutenção do poder. O sucessor, o filho, príncipe, primeiro, legítimo herdeiro. Dom João VI, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Princesa Isabel. Muitos dons, pouca renovação.

Nepotismo é o favorecimento de parentes nas relações trabalhistas. Às vezes é aquela indicação discreta e legal no interior de uma indústria privada. Por vezes é por meio da tentativa de imposição de um cargo público (como Roberto Jefferson tentou fazer com sua filha Cristiane Brasil para representar o PTB na composição do governo para o Ministério do Trabalho). Trabalho livre e democrático preso por amarras familiares destronando a chamada meritocracia. Tal fato não se restringe à política, basta verificar as famílias tradicionais do seu município: aquele grupinho que comanda o comércio nos principais pontos da cidade, o escritório de advocacia do século passado, os principais proprietários de terra que controlam a especulação imobiliária. Não precisa de muito esforço, é só olhar ao redor.

nepotismo
Fonte: http://www.excelenciaeducacao.com.br/2018/01/

Além do corporativismo existente dentro do seio familiar, tal questão torna-se problemática na esfera da administração pública e seus respectivos cargos. Segundo a CGU (Controladoria Geral da União) em seu site, o nepotismo ocorre quando um agente público usa de sua posição de poder para nomear, contratar ou favorecer um ou mais parentes sendo vedado pela Constituição Federal, pois fere os princípios da impessoalidade, moralidade e igualdade. Portanto, estamos falando de um crime e não de um mero acaso preenchido pelo destino no berço.

É natural que as pessoas tenham afinidades por seus semelhantes e que isso faça com que haja um verdadeiro círculo restrito de favorecimento para crescimento mútuo, seja envolto por laços parentescos ou mesmo por identificação como amizade ou profissional. As pessoas se agrupam de acordo com os respectivos interesses como uma forma de sobrevivência, tendendo a se fechar como, por exemplo, a maçonaria.

A questão é quando os laços familiares adentram a esfera pública, contrariando a lógica posta pelo Estado democrático de direito. É como dizem os especialistas em negócios: network é tudo! Desse modo, competência, igualdade de oportunidade, qualificação, experiência e até conceitos éticos são deixados de lado, mesmo que não contrariem necessariamente a legalidade. Ao final tem-se a mesma fórmula: concentração de muito nas mãos de poucos. Uma verdadeira elite familiar.

Fonte: https://leiparapobre.blogspot.com/2017/01/prefeito-que-nomeia-irmao-em-cargo-de.html

Como exemplo de monopólio político é possível citar alguns nomes que fizeram ou que ainda fazem parte do mainstream de players políticos do Brasil: (a) Tancredo Neves (avô) e Aécio Neves (neto); (b) José Sarney (pai) e Roseana Sarney (filha); (c) Renan Calheiros (pai) e Renan Filho (filho); (d) Jorge Picciani (pai) e Leonardo Picciani (filho); (e) Jair Bolsonaro (pai) e Eduardo Bolsonaro (filho); (f) Antônio Carlos Magalhães (avô) e ACM Neto (neto); (g) Cesar Maia (pai) e Rodrigo Maia (filho).

No nepotismo político, as brechas se fazem por cargos de confiança, indicações, troca de favores, cooptação da máquina pública para a realização de interesses escusos e totalmente privados (sempre visando levar a melhor). Compromete não só o sistema presente, mas também o seu futuro, impedindo uma renovação factível com a entrada de novos atores que realmente representem os anseios da população. Assim o ciclo se fecha em si mesmo, da tia para a sobrinha, do pai para o filho, um fim em si mesmo para benefício exclusivo dos parentes envolvidos. 

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Reflexão sobre pesquisas quantitativas e qualitativas

No período eleitoral é comum a coleta de dados sobre a opinião de eleitores com relação a candidatos, partidos e temas presentes na agenda pública para o debate e elaboração de propostas de políticas que atendam o anseio dos cidadãos. Junto às pesquisas que se multiplicam em tal período há também um certo descrédito que vem aumentando com relação ao desenho estatístico e aos resultados finais que por vezes são diferentes do projetado. É necessário abordar conceitos e metodologias científicas introdutórias para elucidar o mistério da temática.

Dois grandes exemplos internacionais sobre a divergência entre pesquisas e resultados foram o Brexit e a última eleição presidencial estadunidense que culminou na vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton. Em ambos os casos as pesquisas que antecederam as votações erraram, resultando no oposto do que foi apontado. No Brasil, a surpresa recente ficou a cargo da vitória de Dória em primeiro turno para a prefeitura de São Paulo quando as pesquisas apontavam segundo turno. Especialmente na política nota-se que há um uso excessivo de métodos quantitativos isolados que, mesmo pautando-se em critérios para a consolidação do trabalho, carecem da complementação de dados qualitativos.

Fonte: http://marketingcomcafe.com.br/as-pesquisas-eleitorais-resistirao-frente-nova-realidade-digital/

A atividade científica é coletiva e estuda medidas. Entretanto, fatores interpretativos e tendências cognitivas devem ser levados em consideração no estudo social. Afinal, dados são aproximações da realidade, não verdades absolutas. Assim sendo, um estudo sobre intenção de voto e percepção do indivíduo vai além de simplesmente números. A complexidade do caso é infinita de modo que a utilização complementar dos métodos é a melhor forma de mitigar as discrepâncias, pois permitem produções de estimativas coerentes, um recorte representativo da sociedade por meio de uma amostra válida. Portanto, trata-se de fenômenos aleatórios e desorganizados, prováveis, mas incertos.

O conhecimento é cumulativo e consolida paradigmas por meio de resultados que apontam convergência sobre determinado tema. Nesse sentido, a pesquisa deve ser elaborada com tempo e seguindo critérios metodológicos padronizados, buscando realmente ouvir as pessoas e entender o que foi dito, interpretando, além das palavras, os valores ali presentes (explícitos e implícitos). O tempo é fundamental na produção de uma pesquisa, tanto de quem é entrevistado quanto de quem entrevista e analisa os dados. Os elementos para a análise são: hipóteses, conceitos, variáveis, indicadores, resultados e referências.

A pesquisa quantitativa pauta-se pela obtenção de informações que serão apresentadas como dados estatísticos, uma população que compartilha uma característica. Entretanto, tal procedimento tem sido realizado de forma superficial. Uma das hipóteses para isso é a competitividade e velocidade nas quais a sociedade está inserida. Cada vez espera-se informações mais rápidas e assertivas pelo público, levando os meios de comunicação em uma disputa organizacional para trazer a matéria de capa atualizada em primeira mão. Todos querem ser atraentes para os leitores/telespectadores (consumidores) e com isso atropelam passos de pesquisas para levarem resultados que algumas vezes são tendenciosos e não retratam um recorte coerente da realidade. A escolha por métodos exclusivamente quantitativos é um exemplo.

Pesquisa Eleitoral 2018
Fonte: https://xn--eleies2018-r6a2o.com/pesquisa-eleitoral-2018/

A pesquisa qualitativa enfatiza a preocupação em estudar o assunto em profundidade. Tem como vantagem acessar o mapa cognitivo da população participante da pesquisa. Trabalha com interpretação e análise causal. Caracteriza-se pela subjetividade e desenvolvimento de teoria, partindo do todo para as partes. Baseia-se no raciocínio dialético e indutivo por meio da comunicação e observação. A pesquisa quantitativa mede a intenção de voto em determinado momento. Trabalha com descrições formais e superficiais aonde o valor considerado é a quantidade. Quanto maior a amostra, menor será a margem de erro. Portanto, caracteriza-se pela objetividade, foco conciso e limitado, indo das partes para o todo. Análise estatística, lógica e dedutiva, estabelecendo relações e causas.

Diante dos desafios e da complexidade que a engenharia social se depara é necessário cautela e um estudo abrangente dos fatores envolvidos na pesquisa. Desse modo, é possível concluir que a união entre métodos qualitativos e quantitativos é essencial para a apresentação de resultados que expressem determinado momento da sociedade, levando em consideração não só a intenção (palavra) do entrevistado, mas o contexto cognitivo, o grau de interferência externa e a formação interna do indivíduo, verificando antecedentes e tendências culturais na formação de um modo de vida e pensamento.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Reflexão sobre as ciências sociais

É difícil falar de um contexto no qual o indivíduo é simultaneamente analista e participante, diretamente envolvido. Assim se faz dentro das ciências sociais cujo papel fundamental do cientista é entender a realidade que o rodeia, buscando causas, consequências e diagnósticos. Diferente de um laboratório em que existem diferentes ferramentas e cobaias a serem manipuladas que permitem ao pesquisador repetir ensaios, voltar testes, simular projeções; na sociedade, o ser humano é experimento de si mesmo dentro do imponderável que é viver.

As ciências sociais (antropologia, ciência política e sociologia) nasceram em um período de intensa agitação e transformação social. Inicialmente, muito devido à influência da filosofia positivista e do iluminismo, buscou-se a racionalidade para explicar tudo. Um marco referencial histórico válido para situar esses acontecimentos é a modernidade que surgiu com a Revolução Industrial inglesa em meados do século XVIII. Subitamente, houveram mudanças no modo de viver, agir e pensar das pessoas e em meio a tantas dúvidas buscava-se respostas plausíveis para compreender o ambiente ao redor e a si próprio.

Fonte: http://editoraunesp.com.br/blog/para-refletir-sobre-a-importancia-da-sociologia-

No início buscou-se a mesma exatidão das ciências exatas (matemática, física e química) deixando aspectos emocionais, subjetivos e cognitivos fora do âmbito de estudo. Um dos motivos para isso foram os resultados de Darwin e sua Teoria da Evolução cuja metodologia e resultados surpreenderam a todos da época. Entretanto, seres humanos não são máquinas programadas que agem sempre do mesmo jeito. A conjuntura da situação determina muito das atitudes podendo levar um mesmo indivíduo a agir de formas diferentes em relação a um mesmo estímulo. Como reproduzir diferentes teorias sobre uma sociedade composta por milhões de pessoas? A complexidade do caso ultrapassa os números, uma verdadeira teia de conhecimento que configura a engrenagem social.

A autonomia das disciplinas da tríade social é contínua e o argumento para explicar tal processo é simples: matemática, física e química são interdependentes entre si, utilizam raciocínios lógicos similares, números, fórmulas, entre outros aspectos que compartilham; porém, possuem sua autonomia, pois utilizam diferentes enfoques sobre a natureza das coisas. Assim também é com a antropologia, ciência política e sociologia: são disciplinas irmãs interdependentes entre si, mas que possuem campos próprios e autonomia conforme ocorre com a tríade de exatas. 

antropologia-digital
Fonte: http://noticias.unsam.edu.ar/2016/11/01/sumate-al-circulo-de-estudio-antropologia-de-lo-digital/

De um modo sucinto é possível apontar algumas características entre as disciplinas que compõem as ciências sociais e que as difere: (a) antropologia - dedica-se a um estudo detalhado e aprofundado do homem, sua diversidade cultural, seus símbolos, o modo de vida e integração de um grupo específico como, por exemplo, um estudo sobre os punks, analisando-os dentro do seu habitat (contexto interno do movimento) e suas relações dentro da sociedade; (b) ciência política - concentra-se nas relações de poder que permeiam a sociedade, seja no âmbito governamental (estritamente político), seja nas políticas internas de uma empresa (âmbito público e privado, cotidiano de tomadas de decisões do cidadão), abordando temas referentes à relação entre Estado (governo, administração) e sociedade (grupos); (c) sociologia - estuda a relação entre indivíduos e comunidades que compõem a sociedade, analisa os fenômenos de interação, formas estruturais internas de grupos e comportamento social. Obviamente que as definições vão muito além deste breve resumo aonde cada disciplina subdivide-se e relaciona-se com outras áreas do conhecimento, mas o objetivo aqui não é se estender a tal ponto de detalhamento.

Dois mais dois são quatro (e talvez assim seja para sempre ou até novas descobertas romperem esse paradigma), mas qual fórmula utilizar para explicar os processos de urbanização, migração, regimes políticos, sociedade, Estados, movimentos sociais, governo, políticas públicas, burocratização, comunicação, democracia, tripartição dos poderes, república, partidos políticos, globalização, clivagem social? A reflexão sobre o ser, sociedade e Estado é antiga, oriunda da filosofia grega e desse modo veio se aperfeiçoando até a atualidade. Reduzir tais estudos a um segundo plano diante das demais ciências é pura ignorância, justamente por não entender o impacto social nas relações humanas e não compreender a construção, estruturação e organização do mundo em que vive.

Sociologia da educação no Brasil
Fonte: https://pesquisaescolar.site/sociologia-da-educacao-no-brasil/

O homem, por natureza, é um ser social, não uma ilha ou simplesmente um número (apesar do sistema tentar reduzi-lo em diversas vezes a sequências numéricas como RG, CPF, PIS, crachá, etc). Mesmo partindo da individualidade do ser, há fatores externos que influenciam a formação e desenvolvimento do indivíduo, levando-o a agir de determinada forma. Assim sendo, existem processos analíticos capazes de identificar padrões diante da identidade unitária de cada pessoa. Muito além de tradições e hábitos culturais, o ensino é fundamental para a construção coletiva de um lugar melhor para se viver e ser uma pessoa melhor.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Reflexão sobre as crises do capitalismo

Rodovias vazias, falta de combustível, filas nos postos, prateleiras vazias, pânico entre as pessoas, escassez de alimentos, ausência de medicamentos, estoques nos matadouros. Parece até a descrição de um período de guerra, mas acalme-se caro leitor, é só mais uma das várias crises inerentes ao sistema capitalista. Dessa vez trata-se da paralisação dos caminhoneiros em terras tupiniquins. Na ausência de alternativas de malhas ferroviárias e parques fluviais somos reféns do sistema rodoviário, dos pedágios, das ruas esburacadas, do preço da gasolina e das montadoras automobilísticas. 

Antes de tudo é preciso entender o que é o capitalismo. Segundo o site Significados, capitalismo é o sistema onde o principal objetivo é o lucro e o acúmulo de riquezas. Portanto, baseia-se no consumo e nos meios de produção, buscando o máximo de eficiência e produtividade pelo menor custo, incentivando o consumo de mercadorias diversas, mesmo que desnecessárias ou em excesso. Ou seja, impera a lei de mercado e o individualismo em detrimento ao social. Não à toa que as sociedades se encontram em constante ebulição. As pessoas sempre querem mais, nunca estão satisfeitas. A desigualdade só aumenta.

Greve dos caminhoneiros, Brasil
https://br.sputniknews.com/brasil/2018052511311294-greve-caminhoneiros-abastecimento-crise/

Mesmo com a predominância mundial do capitalismo é de sua natureza momentos de crise. Logo, a crise pela qual o Brasil passa é apenas mais uma dentre tantas outras que já passaram e que ainda virão. É normal do sistema capitalista possuir crises com certa frequência, variando a magnitude. Além da morte, a outra certeza que se pode ter na vida é que haverá constantes crises no capitalismo, seja por excesso de produção (estoque sem saída) ou por falta de abastecimento (demanda sem produtos). Eis a lei da demanda e oferta.

O fato é que independente das circunstâncias da crise haverá muitos perdendo e poucos ganhando. Essa é a lógica do sistema, não adianta inventar teorias mirabolantes e explicações superficiais, basta ver os fatos. O que esperar de um sistema cuja regra é o lucro a qualquer preço? Enquanto não houver alteração sistêmica as medidas tomadas serão paliativas, assim como um analgésico que tira a dor, mas não cura a doença. Todos os sistemas (político, econômico, jurídico, partidário, etc) estão interligados. A questão está na base, não apenas em um ponto específico. 

Fonte: http://capaiffer.wixsite.com/paiffernew/single-post/2014/10/30/Crise-de-1929-Grande-Depress%C3%A3o

É possível citar alguns exemplos para embasar tal argumentação, dentre as principais em meio a tantas outras: (a) Grande Depressão de 1929 - quebra da bolsa de Nova Iorque gerando um efeito em cadeia no mundo inteiro devido à explosão da bolha especulativa levando vários indivíduos ao suicídio; (b) Crises do Petróleo na década de 70 - países produtores de petróleo e membros da OPEP resolveram aumentar os preços do produto subitamente gerando um efeito dominó nas bolsas e bancos, instabilizando todos os países e gerando conflitos de interesses; (c) Grande Recessão de 2008 - quebra de um tradicional banco estadunidense de investimento gerando perdas imobiliárias e a falta de liquidez bancária, novamente atingindo todo o planeta globalizado.

E quando o capitalismo lucra? Ora, nas guerras. A crise de 1929 foi sanada com a Segunda Guerra Mundial entre 1939 e 1945 (tanto que sobrou dinheiro para os estadunidenses investirem na reconstrução da Europa). As crises do petróleo que se intensificaram na década de 70 foram sanadas com as guerras estadunidenses no Oriente Médio, em especial a Guerra do Golfo em 1991. Já a crise de 2008 está sendo tratada pelos EUA agora, após várias ações militares desde então, sobretudo no Oriente Médio, conseguindo enfim respirar aliviado novamente em meio a tantos misseis e mortes. É a famosa máquina de fazer dinheiro desse sistema tão maravilhoso que traz conforto e segurança para os lares mais afortunados. 

Fonte: https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2017/08/crise-de-civilizacao-capitalista-por-eduardo-mancuso/

Resumindo: jogo de interesses e luta de classes por poder, tempo e espaço. E a história continua com sua saga de exploração no terceiro mundo e cegueira social.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Reflexão sobre a alienação

Ela acorda cedo com o despertador
Acorda sem querer acordar
Ainda está escuro lá fora
O relógio diz que são cinco da manhã
E está frio fora da coberta
Mas ela não pensa, apenas age
Seguindo os instintos sem questionar
Podia ser pior
É mais fácil entregar tudo nas mãos da fé
Na esperança de que um dia vai melhorar
E esquecer que mudanças não caem do céu
Ignorar os fatos é o caminho da felicidade
Sorrir para suportar

Ele levanta da cama subitamente e vai
Apenas corre direto para o chuveiro
Escova os dentes, perde a toalha
E simplesmente vai
Vai com sono mesmo
Só vai
Um café rápido para enfrentar o dia
Veste o uniforme assim como o soldado
Acorda cedo, banho gelado, torradas queimadas
Apenas fecha os olhos e vai
Sem nada de particular
Coletivizar para quê?
Cada um no seu quadrado
Imerso em um universo diverso
São tantas formas, disperso
Apenas quadrado
E vai

Fonte: http://amoestudarfilosofia.blogspot.com.br/2008/05/tema-alienao.html

Ela pega a mochila, se maquia no caminho
Transporte público lotado repleto de tarados
Soldados do crime ostentando o novo carro roubado
Sua arma não é de admirar
Trânsito a perder de vista
Não pode chegar atrasada
Veste o uniforme como quem vai para a batalha
Se a vida é uma guerra então um leão por dia
Vai almoçar, liga a tv
Depois posta alguma foto superficial dentro da realidade virtual
Propagandas de moda mostram o padrão de quem você deve ser
Ela não quer ser aquilo, mas queria algo melhor
Queria ser
Mas se contenta em ter, até mesmo aquilo que acha que tem
Se contenta com o que não tem
Porque um dia pode ter
Querer não é poder

E então ele vai lutando contra o relógio
Vai assim mesmo sem se arrumar
Roupa amassada, cabelo desgrenhado
Cinzas no aquário
Pega os filhos na escola, vê se não demora
Chefe ligando, filhos brigando
A casa está uma zona
Ele simplesmente segue e vai
Sem pensar no que é
É a realidade
Sem pensar como deveria ser
Com a cabeça no final do mês
E as contas que não param de chegar?
Vai
Amar é para os fracos
Construa, destrua
Queime até sufocar
A natureza vai se virar
O meio ambiente é o que eu quero ao meu redor
E você não está nos planos

Ela se esconde no banheiro
Pausa para respirar
Socializar com quem não se quer
Prende o cabelo e se olha no espelho
Quem eu sou mesmo?
Exatamente quem não queria ser
Mas a vida é assim
Feita para ser aceita e submetida
Não para ser quem se quer ser
Não para ser vivida
Para
O trabalho da faculdade que não fez
A prova que mal estudou
Algum tutorial gratuito na internet
Bom, bonito e barato igual ao do comercial
A tela é detentora da verdade
O descaso que condena
Ainda tem o segundo tempo

http://ewertondourado.blogspot.com.br/2011/05/alienacao-trabalhista-segundo-karl-marx.html

Só vai, deixa rolar
Futebol com os amigos
Hora extra em casa
Depois é só votar
Se existe machismo isso não é problema meu
Não precisa pensar, basta ligar a tv
Pessoas vão lhe dizer o que fazer
Uma cerveja no final de semana
Depois de mais trabalho em casa
Essa não vai ter como descontar
Mas tem tanta gente parada não é mesmo?
Tempo demais no trânsito e o sol que não para
Então vai sem pensar, apenas siga o mestre
O cachorro que só late
O bebê que só berra
A criança que só grita
O velho que só resmunga
Só vai

Ela bate o cartão para entrar
Bate o cartão para almoçar
Bate o cartão para sair
Bate o cartão para o busão (lotado)
Janta rápida na novela
Precisa fazer a unha
Precisa comprar pão
Ração para o gato
Um cigarro na janela
Já passou da meia-noite
Dá quase para tocar o silêncio da rua
Que horas são mesmo? Oração
A fumaça escorre com o tempo
Está chegando o dia da eleição
É só chutar e votar
Certo de suas certezas
O pecado está no outro

Um celular novo na promoção
Compra por comprar
Uma manifestação na rua
É só para atrapalhar
Será?
As obrigações não andam
Mas os direitos estão decorados
Uma defesa como arma, o inferno são os outros
Uma foto nova na rede social
Nada como a vida em sociedade
Não sei o nome do vizinho
Até porque ele é um saco
Mas domingo tem jogo
Hora de gastar um pouco
E então ele vai
Vai indo assim mesmo
Sem participar
Discorda por discordar
É sempre mais fácil criticar
Eu quero mudar
Quero alguém para mudar
Está tudo errado
Mas faz tudo exatamente igual
Zona de conforto amigável
Já sei onde encontrar a chave
Mesmo nessa bagunça
Lucrar, dividir, subtrair

Fonte: https://alanelealteste.files.wordpress.com/2012/08/alienacao.jpg

E então fecha os olhos
O mercado é meu pastor e nada me faltará
Perfume de marca
E quando o sono parece embalar...
O despertador teima em tocar
É só terça-feira, ainda há uma semana inteira pela frente
Um meme novo no grupo do trabalho
Uma gozação nova com o estagiário
Mas esse telefone não para de tocar
Você tem que fazer isso
Tem que fazer aquilo
Tem que fazer
Fazer
Pode, deve
Por favor, palavra difícil de dizer
Desculpa por errar, tem que se adequar
Ser perfeito, ser tipo máquina top
Sem pensar, mas desempenhar como o esperado
Ir além
Desempenhar como as metas e as projeções
Já estou esgotado só de pensar
E é um ciclo em que tudo se repete
A vida é assim
Escolhas delimitadas
Determinismo de nascença
O que é liberdade?
O iluminismo totalitário
Igualdade é coisa de comunista mimado
Para que fraternidade se hoje em dia tudo já vem pronto?
Embalado para consumo
Orgasmo rápido e impreciso
Útil para o organismo
E demais futilidades
Três minutos, três acordes

E então os olhos se abrem (apenas parcialmente)
Os ratos que roem os lixos
As baratas que invadem as casas
Mas espera aí: esse é o meu lar!
Uma cerveja nova para relaxar junto aos novos medicamentos
Resíduos que se acumulam em algum canto escondido da cidade
Já está pronto, está tudo programado
Ninguém faz nada mesmo
São todos corruptos, mas eu sou santo graças a deus
O filho legítimo, o herdeiro, o sol de todos os dias
A ascensão da decadência em trajes promocionais da crise
Ah a crise
Tem sempre uma nova
Já está envelhecida
Fascistas e "soluções" fáceis para a complexidade
É só matar, é só prender, é tudo bandido

Uma hora acaba
Já é tarde demais
É preciso gastar
É preciso comer
É preciso vestir
É preciso consumir
Antes que o próximo dia se acabe
Produzir, acumular, restringir
Feche os braços, apague os traços
Se até deus duvida
Dúvida
Divida a vida
Dívida

E tudo se repete
E gira
E volta
E se repete
E se revolta?
Está tudo em movimento
E o universo se expande, mas o nosso espaço se retrai
E então ela vai
E então ele vai
Cai no esquecimento
Todos querem ser lembrados
Mas o que é nosso está guardado
Sete palmos do chão
Submundo, subcultura, subsolo
Ele quer o auge
Ela quer o auge
Alguns bilhões também
Vão assim mesmo
Sem pensar
Vão por ir
Sem lugar
Vai.