terça-feira, 2 de julho de 2019

Reflexão sobre o primeiro semestre de (des)governo Bolsonaro

Seis meses após o início do mandato já é possível realizar uma análise prévia do governo federal após o encerramento desse primeiro semestre de 2019. Trata-se de uma reflexão que condiz com o que foi construído até o momento; portanto, reflete a conjuntura até o ponto atual. Cientistas políticos defendem que os primeiros meses de mandato de um novo governo são essenciais, pois o mesmo chega apoiado pela legitimidade do voto. 

Entre os diversos fatos e sem fake news, é possível começar pelo fim do horário de verão, uma das primeiras medidas do governo Bolsonaro. Ou então a proposta de acabar com a tomada de três pinos.  Ainda é possível citar o fim da multa para os motoristas que circularem com criança fora da cadeirinha. Ou quem sabe ainda a mudança na CNH (Carteira Nacional de Habilitação) por meio de um PL (Projeto de Lei) que visa aumentar de 20 para 40 o número de pontos na carteira e a validade ampliada de 5 para 10 anos para o condutor brasileiro. O guru Olavo versus a ala militar. A decadência de Onyx na articulação política. E o desejo de mudar a embaixada do Brasil em Israel? Quanta relevância para o Brasil não é mesmo?


As bizarrices não acabam por aí. Quem não se lembra da polêmica do golden shower no carnaval? Teve também a declaração contrária ao turismo LGBT no país, o que contraria o próprio momento econômico do país. Especulação sobre o fim das urnas eletrônicas e saída do acordo ortográfico também não faltaram. Ou mesmo em transformar uma unidade de conservação ambiental entre Paraty e Angra dos Reis na Cancún brasileira, repleta de comércio e resorts de luxo para as oligarquias regionais. A pressão autoritária, desnecessária e pública do Levy que culminou na renúncia do mesmo. A proposta de ampliar o enquadramento de arquivos secretos, restringindo assim o acesso público, barrado em fevereiro pelo Congresso. Teve ainda a declaração feudal ao explicitar o desejo de um juiz evangélico para o STF (Supremo Tribunal Federal). Quando o executivo é fraco, o judiciário e o legislativo são levados a governar.

E o caso da Wal (servidora fantasma que vendia açaí em Angra)? E o caso Queiroz e Flávio, suspeitos de lavagem de dinheiro e organização criminosa? E as candidatas laranjas do PSL (Partido Social Liberal) em Minas Gerais? Bebbiano, Marcelo Álvaro (ministro do Turismo)? E a base militar dos EUA no Brasil? Quem aqui se lembra das pérolas da ministra Damares? Realmente esse governo possui um elenco de primeira em questão de comédia e tragédia. A derrota no caso Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indo da Justiça para a Economia. A permissão de menores em clubes de tiro com a autorização dos pais. A polêmica indefinida do porte e posse de armas. Um verdadeiro desastre institucional do poder executivo federal. Criticar era fácil, difícil é fazer.

Bolsonaro vira chacota na Globo (Foto: Reprodução)

Balbúrdia são R$5,8 bilhões contingenciados do ensino, 3474 bolsas cortadas, 2 péssimos ministros da Educação, as diversas demissões e trocas de técnicos em menos de 6 meses. Ex-ministros da Educação, Justiça, Meio Ambiente e Ciência de diferentes partidos já lançaram manifestos contra o atual governo. Até mesmo o Tiririca, ícone do voto de protesto, disse recentemente em entrevista que se o Bolsonaro não sair do pedestal será o pior presidente da história do Brasil. O próprio ministro Sérgio Moro chamou os integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre) de tontos. Enfim palavras sábias em meio a tanta balbúrdia governamental. 

A agenda desses primeiros meses é tão extensa que mal dá para respirar não é mesmo caro leitor? Afinal, o Brasil vive um momento magnífico. Um exemplo foram os 39 kg de cocaína na comitiva presidencial rumo ao G20. Jogada de mito focar no comércio internacional de drogas para fortalecer a economia nacional. Houve também os 117 fuzis M-16 encontrados com milicianos acusados de envolvimento na morte da vereadora Marielle e Anderson. Realmente muitas coisas estranhas rondam o presidente, a família do mesmo, integrantes do governo e a vizinhança. Um banho de sal não faz mal a ninguém. Melhor mudarem as companhias, já dizia a Bíblia: diga com quem tu andas e eu direi quem tu és. 


O excelentíssimo presidente da república das bananas isentou cidadãos dos EUA, Japão, Austrália e Canadá do visto para o Brasil sem contrapartida. Ou seja, eles podem vir de boa, mas nós não conseguimos ir sem burocracia. Vendedor internacional de bijuterias de nióbio. Ah esses comunistas viu, a culpa é sempre deles. Basta discordar do governo para receber tal alcunha, não precisa fazer nada, basta criticar o atual governo. O velho fantasma de um passado que nunca ocorreu em terras tupiniquins. Errar é humano, persistir no erro é burrice.

O único "trunfo" da atual gestão trata-se de uma contradição. Refiro-me ao acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia após 20 anos de negociações. Ora, Bolsonaro anunciava fazer acordos bilaterais e não em grupo, ameaçando reduzir a participação do Brasil no bloco sul-americano. E, subitamente, diz ser um triunfo do atual governo sendo que tal acordo vinha sendo costurado desde 1999 pelas gestões dos mais de 30 países envolvidos. Inclusive a França ameaça não assinar o tratado caso o presidente cumpra a promessa de sair do Acordo de Paris. Pelo amor. O mesmo é possível dizer sobre a Reforma da Previdência que ainda não foi aprovada. Em 30 anos como deputado Bolsonaro sempre foi contra, mas agora acata ao Chicago Boy. Fora as denúncias de parcialidade do ministro Moro em seus julgamentos e seu pacote anticrime que ainda não andou. 

Ações e omissões não faltam para ilustrar. Com um discurso de limpeza geral e incentivo à polarização, o governo Bolsonaro parece não ter saído ainda da campanha, jogando apenas para o seu nicho eleitoral que mantém a sua base. Na verdade, ao longo desse semestre não houve a tal renovação prometida. É bem verdade que restam três anos e meio, mas a dúvida sobre as propostas permanece. A única carta na manga parece ser a Reforma da Previdência. E depois? Por que alguns agentes ganham mais do que o teto previsto por lei? Onde está a Reforma Agrária? Onde está a Reforma Tributária? Por que os políticos e juízes ganham muito além do salário mínimo, fora os benefícios? Seis meses de um verdadeiro desgoverno.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Reflexão sobre a Era da terceirização

Sobram indivíduos, faltam cidadãos. Sobra reclamação, falta civilização. Subitamente, o catador de lixo e o vendedor de balas no semáforo que passam fome e lutam diariamente pela sobrevivência passam a ser cases de empreendedorismo em meio ao modelo da terceirização. Bem-vindo à Era do cada um por si!

A sociedade brasileira nada mais é do que um grande jogo de empurra. Todos sabem ou fingem saber dos seus direitos, mas acabam se esquecendo dos respectivos deveres. Muito se fala em crescimento, mas pouco se aplica de fato em sustentabilidade. Falam em preservar o meio ambiente, mas querem dinheiro e querem agora. As transformações nas noções do tempo e do espaço refletem o cotidiano das pessoas. 

É o prefeito que joga a culpa no governador. É o governador que terceiriza a responsabilidade para o presidente. É o presidente que foge do debate e passa a bola para os ministros. São os pais que terceirizam a educação dos próprios filhos para os professores. É o povo que reclama das enchentes, mas descarta o lixo em qualquer local. É o indivíduo que reclama do coletivo, mas pensa apenas em si mesmo parando em vaga proibida e cortando fila. É o juiz paladino da justiça que falta com a ética. São as indústrias que jogam a culpa para o governo. É o governo que quer fazer cortes sem dar o exemplo. 

Resultado de imagem para terceirização

Exemplos de terceirização não faltam. Pretendem mudar o mundo sem melhorar o próprio interior. A culpa é sempre do outro e assim o ciclo persiste, o velho jogo de empurra. Deixa para amanhã, deixa para depois. Eternamente o país do futuro, tentando ser quem nunca foi. Abrindo as portas e as pernas para o que vem de fora, esquecendo de olhar para dentro. É preciso autorreflexão e humildade para colocar os pés no chão e voltar ao rumo. Modelo empresarial falido, sem PDCA, sem análise crítica, sem resolução de problemas, sem propostas, sem tempo para pensar e ouvir. Apenas terno e gravata sufocando o povo. 

O Estado brasileiro nada mais é do que um grande jogo de empurra. Muito se fala em crescimento, mas acabam se esquecendo do desenvolvimento. O valor monetário bruto supera a qualidade de vida e desse modo o país segue sem perspectivas, fadado ao fracasso. Falta vontade popular, falta vontade política, falta vontade econômica. E assim os vereadores jogam para os deputados. Os deputados empurram para os senadores. Os senadores terceirizam o problema para a oposição. A oposição passa a bola para a situação. O governo, perdido como sempre, joga a culpa no passado, esquece que também faz parte desse jogo há três décadas. E o presente? E o futuro?

Com o avanço do capitalismo neoliberal predatório está na moda usar termos do mundo dos negócios, ou melhor, conceitos mercantis de práticas e melhorias do bussiness visando a eficácia e eficiência do discurso de blá blá blá. Muito se fala em gestão pública gerencial, mas no próprio seio das instituições privadas o jogo de empurra passa do presidente para os diretores, dos diretores para os gerentes, dos gerentes para os supervisores e dos supervisores para a base da pirâmide. Relações verticais extremamente hierarquizadas. Ou, se preferir, a brincadeira antiga de passar a batata quente. Perde quem segurar a bomba por último.

Terceirização só serve para reduzir salários e direitos dos trabalhadores. Entenda porquê.

Terceirizar significa passar a bucha para o próximo. Significa que poucos ganham em detrimento da perda de muitos. Afinal, nem todos podem ganhar pela lógica do sistema não é mesmo? O sucesso pós-moderno se baseia na derrota alheia; pois, para alguém vencer, muitos precisam perder. Amigos, amigos, negócios à parte. E quem paga a conta? Nariz de palhaço a cada novo boleto pago. Nariz de palhaço a cada novo desvio de verba pública, em cada buraco. E a falácia dos demagogos continua; entretanto, ninguém mais bate panela agora. Autonomia passa a ser sinônimo de autônomos (trabalho informal). Tontos!

Terceirizar é colocar alguém para fazer por um menor custo e todos aqueles direitos que as pessoas achavam possuir vão, aos poucos, se perdendo. Todos querem a mudança, mas ninguém quer mudar. Então uma nova rodada de negociações é necessária. Uma nova terceirização, privatização total, tudo nas mãos de poucos, tudo nas mãos dos empresários. Ah sim, a tão sonhada salvação concreta da selva de pedras. Um salve para os heróis das bolsas de valores, sempre em alta. Tolos!

O desemprego, a falta de moradia e a pobreza são meros detalhes em meio aos outdoors de luxo nas avenidas das capitais brasileiras. É necessário sempre mais. Mais cortes, mais reformas, mais privatizações, mais terceirização. Enquanto isso, atrás das cortinas do teatro, o jogo continua sendo jogado, o velho jogo de empurra. 

sábado, 15 de junho de 2019

Reflexão sobre a sociedade de castas (Belíndia)

Era uma vez um país com dimensões continentais cuja desigualdade histórica levou a um processo contraditório, repleto de riquezas e potencial econômico de um lado, mas cheio de preconceito e má distribuição do outro. A Belíndia é justamente a ambiguidade entre o crescimento aparente (simbolizado pela Bélgica) misturado à segregação hierarquizada (simbolizada pela Índia). A velha estratificação social se faz presente nas terras tupiniquins em pleno século XXI e mesmo assim a cegueira dos seus habitantes continua centrada no próprio umbigo. Falta empatia, sobra discursos e justificativas. Uma saturação pós-moderna sem previsão de fim dentro dos paradigmas que estruturam o status quo.

O dualismo proposto pelo termo popularizado por Edmar Bacha na década de 70 traduz a realidade de um país emergente preso em suas próprias desigualdades. O crescimento dos tempos áureos não se converteu em desenvolvimento. Assim sendo, quando a estagnação bate à porta o retrocesso é eminente. Os conflitos se fazem na esfera política, mas é o âmbito econômico que pauta todo o jogo. A briga é pela narrativa vitoriosa, por discursos de massa. A luta se faz pela forma, não pelo conteúdo. Cheio por fora, vazio por dentro. Quem está no topo da pirâmide brasileira? Quem está na base dando sustentação sem sustentabilidade?


A sociedade de castas foi um sistema de divisão social hindu característica de países como Índia e Nepal. Pautada pela hereditariedade, não possibilitava movimentações de um estrato para outro. Ou seja, não há mobilidade. A condição (casta) do indivíduo está acorrentada aos seus ancestrais. O filho está preso ao determinismo inerente à condição (estrato) do pai sendo que cada integrante só podia se casar com membros do seu próprio grupo, perpetuando assim a clivagem social. Teoricamente, as classes sociais do sistema capitalista possibilitam uma alta mobilidade, mas talvez estejamos no meio termo entre ambos: estamentos com pouca mobilidade típico do sistema feudal. Haja em vista as oligarquias (políticas) e os oligopólios (econômicos) presentes.

Em sânscrito (língua antiga falada na Índia), casta significa "cor". São quatro os tipos de castas na Índia: (a) Brâmanes - sacerdotes; (b) Xátrias - guerreiros com poder político; (c) Vaixás - comerciantes; (d) Sudras - servos. Os Párias eram marginalizados da sociedade de modo que nem compunham a pirâmide social das castas, restando apenas os trabalhos degradantes por serem considerados impuros dentro do contexto religioso-político (por esse motivo também são considerados intocáveis). Será que tal divisão se concretiza no Brasil? Metade Índia, metade Bélgica. Talvez nem isso. Um país emergente em estado de emergência entre o sonho da primeira classe e o cotidiano do subdesenvolvimento. A realidade é um fato que se impõe na rotina do cidadão, só não vê quem não quer.

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Era uma vez a promessa de sempre colocar a culpa no outro e postergar as melhorias. Cortes sempre solicitados, mas ninguém dá o exemplo. Burocracia de cima para baixo. Sacrifícios necessários para a satisfação real de poucos. Castas perpetuadas com a promessa de ascensão meritocrática, mas no fundo a alta cúpula é formada por indicações e quadrilhas organizadas que chegam ao poder sem projeto, sem planejamento. Era uma vez uma disputa ideológica contra um fantasma que nunca existiu. Em busca da reafirmação da própria certeza pautada em convicções que se fragmentam a cada areia transcorrida da ampulheta. A verdade é obscurecida, o que importa mesmo é o controle da notícia e da informação. Manipular para sobreviver.

A Belíndia de hoje continua sem respostas, mas os questionamentos só aumentam. Sem heróis ou mitos, apenas humanos tentando passar por cima de outros em prol do benefício próprio. Talvez faraós, pirâmides do Egito no Brasil da atualidade. A desorientação implica na busca por salvação. E a escravidão? E a tal da fraternidade? As dúvidas persistem, perguntas que se multiplicam. Enquanto isso os recursos continuam escassos, a demanda aumenta exponencialmente e a vida de todos passa a ser bolhas insulares onde o ter é mais importante do que o ser. 

sábado, 1 de junho de 2019

Reflexão sobre plebiscitos e referendos

Partindo do pressuposto do que se convencionou em chamar de democracia moderna, a participação popular deveria ser mais ativa nas questões referentes à coisa pública. Entretanto, no velho conchavo de poucas famílias brasileiras no comando da nação, o chamamento popular é irrisório diante da abrangência que o termo democrático traz consigo. Simbolicamente, os cidadãos são chamados a cada dois anos para as eleições e do mais são manobrados por interesses pessoais e partidários como gados no pasto. A resistência atualmente é feita somente nas ruas; pois, por vezes, nem as urnas bastam diante do lobby (explícito ou invisível). O mesmo já se alastra pelos asfaltos por meio de patrocínios.

Duas ferramentas importantes para inserir a sociedade nos debates e tomadas de decisões são os plebiscitos e referendos. Ambos são consultas populares para decidir questões de natureza pública (constitucional, administrativa ou legislativa). Previstos na Constituição Federal, podem ser convocados mediante decreto legislativo em âmbito federal. Já para questões de competências regionais ou locais, os plebiscitos e referendos podem ser convocados em conformidade da Constituição Estadual nos estados e da Lei Orgânica nos municípios.

Plebiscito é uma consulta que antecede a tomada de decisão pelo parlamento, ou seja, primeiramente questiona-se a população sobre o assunto para depois elaborar a legislação. Já o referendo é uma consulta posterior, ou seja, o parlamento toma uma decisão política e consulta o povo para saber se este aceita ou não aquela decisão. Só após a aceitação popular é que a decisão passa a ter validade. 

Plebiscito

Portanto, a principal distinção entre plebiscito e referendo está no momento da consulta, sendo o primeiro convocado previamente à criação do ato legislativo, e o segundo convocado posteriormente, cabendo ao povo ratificar ou rejeitar a proposta. Na história do Brasil é possível citar o referendo sobre o fim do parlamentarismo de 1963 e o plebiscito sobre o sistema político (presidencialismo ou parlamentarismo) e regime (república ou monarquia) em 1993. Nos dois casos o presidencialismo foi a opção escolhida pelos brasileiros. 

Isso não quer dizer que a voz da população sempre é acatada pelo poder público. Um exemplo recente foi o referendo sobre o Brexit quando em 2016 os cidadãos decidiram pela saída do Reino Unido da União Europeia. De lá para cá ainda não houve um acordo entre as partes, o que foi prometido ao povo se mostrou algo tão complexo que ainda não foi possível se concretizar e talvez nem o seja. Uma das principais articuladoras do movimento, Theresa May, foi eleita primeira ministra à época, mas caiu do cargo em maio deste ano devido a seu insucesso. 

OAB 1ª Fase: qual diferença entre plebiscito e referendo?

No Brasil, em 2005 houve um referendo sobre a proibição do comércio de armas de fogo no país. O povo rejeitou a proposta, mas a concessão do registro e porte de armas no país permaneceu rigoroso e restritivo. Como se nota, nem sempre a maioria vence. Nem sempre a voz do povo significa bom senso e racionalidade, muitas vezes se deixando levar pelos sentimentos, agindo por impulso e sem medir as consequências.

Nem mesmo as eleições são garantias de soberania popular. Assim foi com Jango na década de 60 após a renúncia de Jânio Quadros e também na eleição de Dilma para o seu segundo mandato como presidenta em 2014. Mesmo sendo eleita, o impeachment logo foi armado com a promessa de uma faxina política. O que se vê hoje, mais de três anos depois do seu afastamento, é que a sujeira continua nos porões e esgotos de Brasília e vários corruptos (empresários e políticos) livres ou em prisão-mansão domiciliar. A desculpa do golpe permanece até hoje, assim como Temer jogou toda a culpa da sua incompetência na greve dos caminhoneiros. A culpa é sempre do outro e no final quem paga a conta é o povo.

sábado, 18 de maio de 2019

Reflexão sobre a sociedade de riscos

Característica marcante da sociedade pós-moderna são os riscos embutidos em cada elemento do cotidiano. Seja no estilo de vida fragmentado (oriundo da divisão moderna industrial) ou na revolução tecnológica, a cada dia há novas formas de expressão e transformação que alteram hábitos, tempo e espaço. A ameaça mundial contida na bipolarização que marcou o século XX continua acrescida da ameaça do consumismo globalizado e consequente enfraquecimento do Estado-nação.

O medo sempre foi um sentimento presente, o diferencial da atualidade são os riscos inerentes de cada ato. Sociedade de risco foi o termo utilizado pelo sociólogo Ulrich Beck para descrever um sistema repleto de perigos e inseguranças induzidos pelo próprio processo de modernização tendo a sua consequência na contemporaneidade. Uma sociedade estruturada em reações, pois as ações podem ser graves e desastrosas. Como exemplos é possível citar a nuclearização, robotização (inteligência artificial), aquecimento global (degradação do meio ambiente), manipulação genética, controle de instituições (vigilância e monitoramento), agrotóxicos, descarte de resíduos, entre outros.

Sinal De Alerta, Assinar, Sinal De Trânsito

O aparente negativismo no pensamento do autor se traduz por meio da realidade nua e crua. A produção descontrolada da riqueza é acompanhada pela produção social de riscos como um efeito colateral. A cadeia alimentar social é simples: se não produz não vende; se não vende não contrata; sem emprego não há recursos; sem recursos Estado e sociedade ficam estagnados; estagnados há uma perda na qualidade de produtos e serviços; sem qualidade há um retrocesso de vida e queda no desenvolvimento humano; sem motivos para viver e melhorar tem-se a indiferença e anomia. O processo converte-se a si mesmo, um ciclo como uma bola de neve.

O risco está na dependência do Estado para com o sistema. O risco está na dependência da sociedade para com o Estado. O risco está na desconfiança entre as pessoas. O risco está na dependência da tecnologia e na demanda por uma alta produtividade sendo que os recursos primários (matéria-prima básica) são limitados (escassos) e em alguns casos já estão se esgotando. O melhor não é mais sinônimo de qualidade, mas sim aquilo que pode evitar algo pior.


Se antes, segundo Beck, havia a solidariedade da carência e esperança no futuro mesmo diante das dificuldades enfrentadas, o que se nota hoje é a solidariedade pelo medo, uma burocratização típica dos tempos de Weber e uma apatia que condiz com a falta de reconhecimento descrita por Honneth e demais pensadores da Escola de Frankfurt. 

A democracia que não é democrática flerta perigosamente com a oligarquia no âmbito político e oligopólios no âmbito econômico. Poucas estruturas de mobilização factíveis remetendo a um sistema de castas tal como na Índia. A demagogia parece se encaixar melhor no contexto cibernético vigente em que todos querem falar sem ter o que ser dito. Todos falam (muitas vezes sem pensar), todos querem ter razão (especialistas de nada), mas poucos ainda sabem ouvir e respeitar. 

O básico representado pela tríade de educação, segurança e saúde é deixado de lado. O passado é esquecido, a história é acusada de traição ideológica. Todos são inimigos e culpados pelo simples fato de discordar. A igualdade passa a ser a autopreservação em detrimento da sociabilidade. Perto tecnologicamente (online na rede), mas longe um do outro quando estão fisicamente lado-a-lado. Mais uma contradição inerente ao neoliberalismo desenfreado e selvagem. Afinal, ganha quem tiver o saldo maior, ganha quem tiver a conta mais recheada de cifrões, seja euro, dólar ou real. Ao final, todos perdem.  

terça-feira, 7 de maio de 2019

Reflexão sobre os cortes no ensino

Cortar a filosofia
Em prol de uma suposta economia
Uma sociedade sem sabedoria
Simplesmente sem empatia
Em busca de soberania
Luta pela autonomia 
Sem ser utopia
Cortar a sociologia
Pura demagogia
Falsa democracia
Isso sim é anomia
Rigidez típica da oligarquia
Automatização líquida e apatia
Educação é fundamental todo dia
Logo será história e geografia
Contexto similar ao da Guerra Fria
Sem sinfonia, sem sintonia
Brigando contra a própria ideologia
A ciência perde espaço para a falsa magia
Um castelo sem fantasia
Erro atual de anacronia
Pura hipocrisia
De um governo sem simpatia
Sociedade descartável, esquizofrenia
Doença avançada sem terapia
Agindo com covardia
Estado sem guia
Capitalismo de periferia
Sem sinfonia, sem sintonia.

Dia dos Mortos Pensador vetor de dia dos mortos pensador e mais banco de imagens de esqueleto humano royalty-free
Fonte: https://www.istockphoto.com/br/vetor/dia-dos-mortos-pensador-gm183411053-15707929

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Reflexão sobre o diário de um desempregado

Acorda cedo, sem hora para terminar
Prepara o café, arruma a casa
Chama as crianças para a escola
Prepara o fôlego para mais um dia
Insistência, persistência, resistência
Pasta no braço, currículo na mão
Carteira de trabalho sem registro
São as contas que não param de chegar
As bocas para alimentar
Pego ônibus lotado
Sem lugar para sentar
Vai de empresa em empresa
Fila em cada rh
Sonha
Não pensa para não desanimar
Apenas sonha e segue
Vai meio sem rumo
Até quando a perna aguentar
Na tv o ministro diz que vai melhorar
O jornal fala de melhora na economia
Mas já faz um ano que segue na rotina do desemprego
Demissões
Diário de um desempregado
Acorda cedo para enviar currículo
Liga o computador e fica até a noite chegar
Busca marcada pela esperança pela contratação
Limpa a casa, liga o rádio para tentar relaxar
Força, foco, fé
Mas a angústia continua
Melancolia, tristeza, depressão
Não se pode deixar abater
O presidente diz que vai melhorar
Mas o índice de desemprego não para de aumentar
Sobra cobrança, falta oportunidade
Então sonha sem pensar e segue
Refém dos bancos, refém do mercado
Um sistema de exclusão e gentrificação
Que afasta do centro para as margens
Falta espaço, falta tempo, falta dinheiro
É o chocolate que não vai poder dar
O presente para o filho que não consegue comprar
Clivagem social, seja por gênero ou idade
Mesmo assim segue
Sabe que não pode parar
Mãos calejadas
Dor no joelho
Falta dinheiro até para a passagem
Várias reformas aprovadas
Mas a vida continua a mesma há meia década
Talvez até pior
Tanto se fala em previdência
Mas falta o básico
Falta ensino, segurança e saúde de qualidade
Falta emprego
Falta o sentimento de reconhecimento e dignidade
Olha para o lado e respira um pouco
Foram tantos currículos que até perdeu a conta
É o atraso que sufoca
A falta de perspectiva que afoga
Vida dura, suada e seca
Contradições e perguntas sem respostas
Informalidade quase indigente
E ainda querem mais
Bem diferente dos engravatados em seus discursos
A realidade se impõe
Por vezes machuca
Ferida social aberta não cicatrizada
O preço é muito alto
Mas parar não está entre as opções
E assim segue com sua sombra
Com medo e esperança
Sabe que amanhã será um novo dia
As luzes se apagam
O silêncio externo contrasta com a agitação interna
E o ciclo se repete de novo e de novo.

sábado, 13 de abril de 2019

Reflexão sobre o Brexit

As relações internacionais, que tendiam à abertura mundial por meio da globalização após o período de bipolarização presente na Guerra Fria, agora encontram obstáculos até mesmo de nações tidas como liberais e que agora apresentam um individualismo imediatista. Como exemplo é possível citar as duas principais nações anglo-saxãs: os Estados Unidos de Trump e a Inglaterra de Theresa May. Esta última com o diferencial de busca pelo reconhecimento na contemporaneidade pela hegemonia de outrora. 

O processo de separação do Reino Unido com a União Europeia ficou conhecido como Brexit que em inglês significa saída (exit) dos britânicos (br) do bloco ao qual pertencem desde 1973. É bem verdade que a geografia de ilha da Grã-Bretanha afastada do continente pelo Canal da Mancha e a utilização da libra como moeda oficial mesmo após a adesão do Euro como moeda do bloco europeu conferem algumas peculiaridades. A onda protecionista e nacionalista influenciada, sobretudo, por questões econômicas e pelos fluxos migratórios tornam-se um solo fértil para análise da conjuntura atual. Assim é Babel, conforme descrito por Zygmunt Bauman: entre a incerteza e a esperança. O tradicional conservadorismo insular se faz presente no século XXI.

brexit o que é causas consequências para brasil e mundo

Em 2016 o então primeiro-ministro do Reino Unido David Cameron fracassou politicamente ao colocar em votação um referendo sobre a saída do país do bloco europeu. Após a vitória daqueles que eram favoráveis ao divórcio por uma pequena margem de diferença (51,9% a favor da saída contra 48,1% favoráveis à permanência) o mesmo se viu obrigado a deixar o cargo e renunciou depois do congresso de outubro do seu partido.

Cameron foi sucedido por Theresa May que prometeu atender aos anseios britânicos por meio de um processo de separação que não traria grandes consequências aos envolvidos e levaria a cabo a histórica decisão dos mais de 30 milhões de eleitores (71,8% do total) que compareceram às urnas para expressar o seu desejo, fato que não foi comprovado com o passar dos anos.

Brexit and access to UK financial markets by EU27 firms

Desde então o que se vê são sucessivas discussões no parlamento britânico sem a costura de um acordo político viável. O dilema até o momento se baseia em duas opções: (1) um acordo com o parlamento europeu de mútuo entendimento entre as partes; (2) saída abrupta e sem acordo com a União Europeia, o que acarretará em várias perdas e um grande impacto na economia da ilha.

A busca pela retomada dos holofotes por parte dos britânicos assim como fora nos séculos pertencentes à modernidade mostra-se como uma típica nostalgia da hegemonia passada. Em especial, a predominância inglesa no século XVIII por meio da Primeira Revolução Industrial e consolidação após a vitória nas Guerras Napoleônicas durante o século XIX, interferindo em assuntos como independência, escravidão, monarquia e dívida pública do Brasil no período.

brexit o que é

A peculiar monarquia democrática parlamentarista britânica se encontra perdida entre realizar uma nova consulta pública, validar o resultado do referendo e atuar para a separação ou ignorar o voto dos cidadãos em prol da continuidade do relacionamento ao não romper com a integração europeia. De qualquer modo, as consequências da eventual ruptura já são sentidas no Reino Unido com a saída de algumas empresas para o continente europeu sendo que parte da própria população local pede um novo referendo alegando que foram iludidos por promessas não cumpridas dos defensores do Brexit.

O estrago já é sentido e aumenta conforme o prazo chega sem uma solução viável no horizonte que agrade as duas partes envolvidas. O caminho do meio tal como citado por Aristóteles no livro “Ética a Nicômaco” ainda não foi encontrado pelo sistema parlamentarista insular diante da suposta democracia monárquica. Mais uma vez as contradições do capitalismo se acentuam por meio de um suposto neoliberalismo globalizado.

domingo, 31 de março de 2019

Reflexão sobre a ditadura militar brasileira

Ultimamente as pessoas acham normal condenar a opinião alheia por ser uma voz dissonante. O amor ao próximo passou a ser repulsa pelo oposto. Adversários políticos tornam-se inimigos. O achismo individual passou a ser tratado como verdade universal absoluta. Em uma sociedade saudável, a argumentação e contraposição de ideias é algo extremamente natural que fortalece o senso crítico e equilibra o desenvolvimento humano. Mas o que dizer para aqueles que nem vão ao debate? Não sabem, não querem saber e têm raiva de quem sabe. O suposto país do futuro está com vendas nos olhos.

Afinal, se você disser no Brasil atualmente que a terra não é plana estará cometendo uma blasfêmia e deverá responder por tal atitude. Do mesmo modo que se convencionou a ocultar e distorcer fatos e dados como a escravidão no país. A moda da vez é dizer que o regime militar brasileiro não foi uma ditadura. Certos de suas certezas, cegos do mundo ao seu redor. Pior, querem atacar visões diferentes somente por não concordarem com o absurdo. A ignorância parece ser o caminho da felicidade para essas pessoas que vivem em completo isolamento assemelhando-se a pequenas ilhas dentro de um tecido social cada vez mais intolerante, racista, impaciente e preconceituoso.

Tanques do Exército em frente ao Congresso, após o golpe, em data indeterminada de 1964

Escondendo-se da verdade, os gênios desconhecidos da internet passam o dia apenas para criticar, destruir o conhecimento e sabedoria. Ora, se disserem que a Terra não é o centro do universo então, em breve, será necessário mandar tal sujeito para a forca ou fogueira. Nada mais atual do que os homens da caverna e seu protecionismo nacionalista marcando território. Afinal, o que comemorar nos eventos de 31 de março que deram início à ditadura militar em 1° de abril de 1964? Mentira? Gostaria que fosse, mas a realidade se impõe. Generais fora dos quartéis combatendo o próprio povo, fardas manchadas de sangue, tanques nas ruas, repressão. Nem inferno, nem paraíso: apenas as contradições terrenas dos habitantes que aqui habitam em busca de reconhecimento e salvação.

Foram 21 anos que ainda hoje não estão completamente à luz e o excelentíssimo presidente da república quer fazer uma festa. A grande pergunta que fica é: o que celebrar? Comemorar os mais de 400 mortos e desaparecidos por se oporem ao regime militar instaurado? Ou então ao genocídio de mais de 8 mil índios? Grandes patriotas tais senhores que mataram a própria população com a desculpa de se evitar uma ameaça comunista. Hoje, ainda assim, culpam os outros para justificarem atos injustificáveis. Afinal, se o governo de Jango seguia a Constituição vigente, respeitando os protocolos à risca, então qual o perigo havia nisso? O pior cego é aquele que não quer ver.

execuções da ditadura militar

O verdadeiro golpe que houve foi militar das Forças Armadas brasileiras patrocinadas pelos EUA para conter a expansão do seu adversário em pleno contexto de Guerra Fria. O medo estadunidense era que o exemplo de Cuba se propagasse pelos outros países da América Latina. Assim sendo, segundo a lógica norte-americana, o inimigo do seu inimigo era o seu amigo e nesse caso os regimes ditatoriais de direita poderiam ser úteis, aliados para extinguir uma ameaça que nem esteve na eminência de ocorrer em terras tupiniquins. Uma humanidade sem memória perde o seu caráter racional e torna-se apenas um animal sedento por instintos primitivos e falta de respeito. Talvez seja por isso que certas pessoas menosprezem os direitos humanos, justamente por não haver mais traços de humanidade neles próprios. 

Mito foi o chamado "milagre econômico" que agravou a situação do país com alta dívida e inflação. Que milagre foi esse na década de 70 que levou o país para o abismo na década seguinte? Mito foi a suposta qualidade de ensino no período da ditadura militar, sendo que o índice de analfabetismo da população era alto. Mito era a perfeição da saúde da época com grande déficit de saneamento básico e um sistema público que só atendia trabalhadores formais, pois o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não existia. Mito é achar que a corrupção é coisa de agora e que os militares não cometeram nenhum ato de desvio de recursos. Mito é dizer que só morreram vagabundos e terroristas. Mito é dizer que todos apoiavam o regime e que todos conviviam em perfeita paz e harmonia. Quem são as pessoas nas fotos? Os rostos desconhecidos? As faces desfiguradas? E as famílias? 


Os mesmos que acreditam na perfeição do Brasil durante o período do regime militar também acreditam em contos de fadas. Como é sempre dito neste espaço: a história é feita por seres humanos, homens e mulheres, não por heróis e vilões. Então a pergunta do início desse texto se repete: o que celebrar em 1° de abril? O dia da mentira? Comemorar os mortos políticos, os presos, os torturados, os censurados, os desaparecidos, a falta de liberdade, o medo, a ausência de diálogo e opiniões? O que celebrar? O poder, a ganância, a miséria, a desigualdade, os atos institucionais?

Ninguém possui bola de cristal para saber como seria o restante do governo de João Goulart. O que temos são acontecimentos. A realidade é pautada por fatos e o fato é que houve sim uma ditadura militar brasileira desde a posse de Castelo Branco e um endurecimento contínuo e progressivo passando por Costa e Silva, Médici, Geisel até o declínio ocorrido durante o governo de Figueiredo. Isso não quer dizer que todos os militares estavam envolvidos em crimes e também não quer dizer que as Forças Armadas são inimigas eternas do povo brasileiro. Mas lembrar é viver, então é preciso revisitar a memória do Brasil para esclarecer fake news apoiadas pelo atual governo e seu sistema de desinformação nacional.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Reflexão sobre os Estados Unidos do Brazil

Paixão antiga e platônica. Por vezes disfarçada, mas sempre presente. Que o Brasil ostenta uma inegável admiração pelos Estados Unidos da América não é uma novidade. Como exemplo é possível citar o próprio nome oficial do país em 1891 como sendo República dos Estados Unidos do Brasil, quando então a jovem nação independente tupiniquim abandonou a monarquia para abraçar um modelo oligárquico de república federativa. Tal nomenclatura do país perdurou até a Constituição de 1967. Típico romance de nações, só que no caso entre Brasil e EUA trata-se de um amor não correspondido.

Durante visita recente do então presidente Bolsonaro à Casa Branca, tal amor unilateral por parte do Brasil foi explicitado ao nível de praticamente beijar a sola do sapato do suposto amor (no caso personificado pela figura de Donald Trump). Uma criança na Disney brincando de governar um país com acordos desequilibrados, reflexo do governo dos Estados Unidos do Brazil (ou EUB se preferir) e da nova família patriarcal. Se de um lado foi liberado o uso do centro espacial de Alcântara, importante polo estratégico situado no Maranhão; do outro lado houve, na melhor das hipóteses, um autógrafo e uma foto de Trump para o seu fã Bolsonaro. A troca de presentes diante das câmeras foi simbólica: uma camisa original contra outra remendada.

Charges: O encontro entre Trump e Bolsonaro

A idolatria presente na história do Brasil de outrora volta à tona com vigor e fanatismo. Uma cópia subdesenvolvida conforme descrito na reflexão sobre o sonho americano. Se no âmbito das relações internacionais os acordos são feitos de modo bilateral, o "Brazil" foi, no mínimo, ingênuo na tratativa dos assuntos. Não restou nada de concreto ao término da reunião, apenas promessas e ilusões. Se de um lado o brasileiro pena para conseguir entrar e permanecer nos EUA; do outro lado as portas estão escancaradas, implorando pela visita do Tio Sam. Inveja, admiração ou submissão?

O sonho tupiniquim há tempos é o sonho americano. Do terror do comunismo (que por sinal nunca houve de fato no país) o que existe é a sede pelo consumismo. Mais do que isso: o sonho em ser os Estados Unidos da América do Sul do Brazil. É bem verdade que, historicamente, os laços entre as duas nações sempre foram fortes. Os Estados Unidos da América foi o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil. Por serem bonzinhos? Apenas negócios. Nem heróis, nem vilões: apenas seres humanos.

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Além do nome de Estados Unidos do Brasil que já foi realidade, também embarcamos ao lado dos estadunidenses na Segunda Guerra Mundial. Jogo de interesses e conflitos. Não se pode ocultar o apoio dos norte-americanos para a instauração do regime militar brasileiro em 1964. Qualquer ditadura e tortura foi aceita pelos EUA para combater a concorrência presente na bipolarização durante o século XX. Se os fins justificam os meios, então o que justifica os fins? Leon Trótski se faz presente com o seu questionamento do século passado, ainda atual. 

Se as guerras se justificam por meio do acúmulo de poderio bélico e recursos estratégicos, assim como foi no Iraque e as supostas armas de destruição em massa (vide petróleo); então o que justifica os fins? Se a democracia é o governo do povo, então como explicar a demagogia utilizada pelas elites em sua clássica oligarquia disfarçada cuja alternância do poder se faz entre o seleto grupinho fechado dos mesmos? Faça o que digo, mas não faça o que faço. É possível citar um velho sábio para concluir sobre a relação entre o vizinho rico do Norte e o primo pobre da América do Sul: "a solução é alugar o Brazil". Sim caro leitor, Estados Unidos do Brazil (com z).