domingo, 31 de julho de 2016

Reflexão sobre o consumo

Mais um mês que termina e é engraçado como a cada mês que passa a opinião pública é forçada a focar em datas comemorativas. No momento a bola da vez são as olimpíadas e o dia dos pais. Somos bombardeados por diferentes tipos de mídias a consumir o produto da data em questão. Por outro lado, é estranho andar pelas ruas e ver pessoas alheias a tudo isso, matando um leão por dia para sobreviver. Refiro-me aos moradores de rua, presentes embaixo de cada viaduto da cidade, sempre com um cão como companheiro, dividindo muitas vezes o pouco que tem. Volto a minha reflexão para a "sociedade civilizada" e vejo parentes se matando por herança, relacionamentos construídos à base de interesses e a distorção de valores, onde o ser é cada vez mais apagado pelo ter.

Lembro-me de acordar antes do sol nascer para ir ao trabalho e desde cedo encontrar pessoas revirando os lixos da cidade em busca de sobras. De um modo mais específico, lembro da cena de um pai que levava o seu filho para "passear" no mesmo carrinho em que juntava latinhas de alumínio para o sustento da família. Ao lado, um cachorro que acompanhava fielmente os seus donos. A impressão que a criança e o cachorro transmitiam era de realmente ser um passeio, apesar de tão cedo. Já no semblante do pai havia a serenidade de não assustar o filho e focar na missão do dia: obter recursos para o mantimento familiar. 

Em meio às latinhas fiquei imaginando o caminho que elas levaram até ali. Eram, em sua maioria, latas de cerveja. Portanto, suponho um churrasco ou algum outro tipo de confraternização. Imaginei o quanto aquelas mesmas pessoas já haviam reclamado de situações da vida, desejando naquele momento apenas celebrar, esquecendo assim os seus problemas cotidianos. Lembrei do descaso com o próximo em uma sociedade cujo objetivo é obter lucro e vantagens. Vivemos sob o raciocínio do utilitarismo, onde os fins justificam os meios, como diria Maquiavel. Desse modo, o fato de esquecer do próximo e até mesmo passar por cima de outras pessoas não seria o problema, desde que o objetivo capitalista seja alcançado. Traçando um paralelo ao caminho das latinhas, desde o mercado até o lixo, imaginei algo ainda mais sério: qual teria sido o caminho traçado pelo pai e pelo menino até aquele ponto?

Quantas latinhas na rua, agredindo o meio ambiente, com a desculpa de que poluindo a cidade o indivíduo estará fazendo um favor social gerando novos empregos? Enquanto isso, o Estado fecha os olhos para os seus filhos não ilustres, fechando as portas das oportunidades para os que se encontram às margens da sociedade. A distribuição de renda se concentra cada vez mais para empresas e bancos que buscam constantemente o capital selvagem. O que realmente retorna para o cidadão? São tantas as portas abertas para a criminalidade, mas por que o trabalhador perde espaço? Eles querem filas de cabeças não pensantes aguardando horas pela abertura de portões para a disputa de poucas vagas de emprego.

Com a crise essa questão tende a piorar. Mais pessoas desempregadas, menos vagas abertas...faça as contas. Com isso, os capitalistas ficam cada vez mais exigentes na sua seleção profissional e o trabalhador sofre com a redução de salário, aumento de jornada e com o risco de perder direitos trabalhistas já adquiridos. A filosofia que impera é do um contra o outro ao invés do um pelo outro. Não é difícil imaginar como será o final dessa estória. E assim, a história se repete. A cada crise econômica há um retrocesso social que só favorece os mais privilegiados que, na maioria dos casos, são aqueles que já possuem dinheiro. Afinal, quem estará apto para uma vaga de estágio que pede inglês fluente, alemão intermediário, certificado de nível avançado para ferramentas como autocad e office e, como se não bastasse, experiência na área de projetos? Todos são capazes de concorrer à vaga, mas a probabilidade está a favor dos que possuem maiores recursos financeiros, tendo em vista que não há igualdade de oportunidades. Desse modo, é possível que o menos privilegiado atenda todos os pré-requisitos e conquiste a vaga, mas para isso o mesmo terá que traçar um caminho maior e mais árduo.

Nesse sentido, o consumo é estimulado sem pensar nas consequências. Qual será o presente do pai catador de latinhas? E em outubro, qual será o presente do filho? E a cada dia há uma nova celebração para se gastar e um novo evento para consumir. O conforto é a bandeira levantada pelos capitalistas e concordo que o ser humano deve buscar constantemente a qualidade de vida. O que procuro trazer com este texto é a reflexão sobre os excessos de consumo, ou seja, aquilo que é puramente ostentação e que está acima do necessário e do conforto. É aquele consumo exagerado que de tão desnecessário chega a ferir a sociedade. Um exemplo são os vários relatos de desperdício de alimento em que muitos agem pelo impulso, gerando uma alta quantia de sobra no lixo. Errar é humano e todos nós cometemos erros, mas se não há culpa em comprar bebida alcoólica em uma quantidade monstruosa, qual o problema em doar dez reais para alguma instituição de caridade que desenvolva um trabalho sério, seja ela qual for? 

Para encerrar este texto farei uso das palavras do pensador Renato Russo: "Sempre precisei de um pouco de atenção, acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto e nesses dias tão estranhos fica a poeira se escondendo pelos cantos. Esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante e a primeira vez é sempre a última chance. Ninguém vê onde chegamos, os assassinos estão livres, nós não estamos. Vamos sair, mas estamos sem dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego. Voltamos a viver como há dez anos atrás e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas. Vamos lá, tudo bem, eu só quero me divertir. Esquecer dessa noite, ter um lugar legal pra ir. Já entregamos o alvo e a artilharia, comparamos nossas vidas e mesmo assim não tenho pena de ninguém."

O consumo descontrolado é ostentar o que não precisa ou mesmo o que não tem. A busca pelos holofotes é predatória, passando por cima de inocentes para atingir objetivos individualistas. O consumismo é a troca do coletivo pelo individual, é a inversão de valores onde o ter é maior do que o ser. Desse modo, vivemos em um teatro de vampiros.


sábado, 16 de julho de 2016

Reflexão sobre os jogos olímpicos

Mais um atentado contra a humanidade há menos de um mês dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro. Somado a esse fato está a falta de recursos da polícia que atuará na cidade, o estado de calamidade pública anunciado pelo governador do Rio, a violência que nunca cessa nos morros cariocas, a instabilidade política do Brasil, a tentativa de golpe militar na Turquia, a eleição norte-americana e a incerteza econômica que assola o mundo. Diante do cenário descrito é difícil ser otimista com os tais jogos.

Primeiro vamos focar a nossa reflexão para dentro de casa e questionar os legados dos jogos que virão traçando um paralelo comparativo com os jogos que já passaram pelo país. Nesse quesito temos pontos negativos como os elefantes brancos que ficaram da copa do mundo de futebol. Ainda me questiono sobre o motivo de utilizarem tantos estádios sendo que muitos não se pagam e caem no esquecimento. A submissão de uma nação diante das exigências de um ente como a FIFA mostram o descaso para com as reais necessidades do povo. De certa forma podemos dizer que obras importantes de infraestrutura e saneamento foram trocados por estádios e assentos para satisfazer os traseiros dos visitantes estrangeiros durante o evento. São várias as denúncias de desvio de verba pública para a realização das obras e também de superfaturamento de políticos e empreiteiras envolvidos na construção/reforma dos estádios, como o caso da arena de Itaquera, em São Paulo. Contrariando a lógica capitalista, os elefantes brancos dão mais prejuízo do que lucro e restam como herança de um vexame nacional dentro dos campos. O mesmo se aplica aos Jogos Pan-Americanos realizados no Rio, que talvez seja o melhor parâmetro para realizarmos uma análise sobre o evento que virá.

Não podemos nos esquecer do perigo trazido pelo mosquito Aedes Aegypti, transmissor de doenças como a dengue, a zika e a chikungunya. Vários são os atletas estrangeiros que já confirmaram a não participação nos jogos devido ao medo de contaminação. A saúde fluminense está na UTI em estado terminal. Não há leitos, não há remédios, os hospitais estão sem estrutura adequada e os médicos estão ausentes ou com o salário atrasado. O resgate do traficante Fat Family diz por si só. Como se não fosse suficiente, a cidade vive uma verdadeira guerra civil entre policiais, milicianos e traficantes. No meio de tudo está a população. A situação é tão crítica que o número de policiais mortos supera os sessenta. E quantos inocentes foram mortos de 2007 até agora? Por fim, é possível citar a greve dos professores e a calamidade da UFRJ. Portanto, é difícil encontrar qual área foi realmente beneficiada com os diversos eventos que ocorreram na cidade do Rio de Janeiro na última década.

Mas o problema não se restringe aos estádios. Desde os jogos Pan-Americanos de 2007 fala-se em ganhos para a cidade do Rio de Janeiro como melhora na segurança, mobilidade urbana e incentivo ao esporte. A pergunta que o povo brasileiro se faz, sobretudo os cariocas, é onde foram parar todos esses ganhos. O cidadão só vê aumentar o trânsito por causa das obras, o crescimento da violência urbana e os esportistas cada vez com menos apoio, muito devido à crise atual que o país vive. Foram tantos bilhões investidos de 2007 até 2016, mas não há o que comemorar. Afinal, o legado de tanto investimento é sentido por poucos, talvez apenas por aqueles que se apropriaram indevidamente de recursos públicos e privados. Portanto, o histórico não é favorável para o povo brasileiro.

Outro aspecto para refletir são os acontecimentos externos. A efervescência global parece uma panela de pressão que não para de aumentar. Os fatos mais recentes são: os atentados terroristas em Nice e Istambul e a tentativa de golpe militar na Turquia. Em ambos os casos centenas de civis foram mortos e um sentimento de medo e atinge as demais nações, mesmo que distantes geograficamente. A lacuna de tempo entre os Jogos Pan-Americanos de 2007 e os Jogos Olímpicos de 2016 é considerável, não em termos exclusivamente temporais, mas pelas mudanças sofridas pela sociedade. O terrorismo é uma ameaça muito mais presente hoje do que foi no passado para o Brasil, sobretudo com a ascensão do Estado Islâmico. A insegurança é tanta que assuntos como a saída do Reino Unido da União Europeia, ocorrida há poucas semanas, parece algo antigo e secundário.

No campo político temos a crítica da oposição francesa ao atual governo do país, vítima de vários atentados terroristas nos últimos dois anos. Também temos o perigo Trump nos EUA, que pode representar mais uma vitória para os conservadores nacionalistas. Internamente temos a questão do impeachment, assunto do meu primeiro post neste blog, e a incerteza quanto aos rumos político-econômicos do país. 

O fato de ter um evento mundial de grande porte não me anima em nada. Vejo as Olimpíadas como um grande celeiro para hasteamento de bandeiras, agravando ainda mais a questão da competição e do nacionalismo. Sou a favor do esporte, mas os esportistas de hoje representam hinos e interesses de terceiros. Os jogos só fazem aumentar a dívida do país e tudo isso apenas para ser melhor visto externamente - isso se der tudo certo, o que se torna um risco. O evento pode ser um "sucesso" tendo em vista a hospitalidade do brasileiro e o teatro armado para os dias dos jogos. Mas e depois? Qual será o grande legado das Olimpíadas para o Brasil além de um rombo nos cofres públicos? E quanto à segurança, saúde, transporte público e educação? Espero que ao final dê tudo certo, mesmo não concordando com um evento que só alimenta a política do pão e circo.

Quando a tenda é desmontada e as luzes se apagam, a realidade volta à cena e somos os palhaços no palco principal da corte.

sábado, 2 de julho de 2016

Reflexão sobre o nacionalismo

Semana passada a comunidade mundial ficou em choque com o anúncio do resultado do plebiscito que tirou o Reino Unido da União Europeia. Estima-se que o processo legal para a saída do bloco europeu leve, aproximadamente, dois anos. Apesar da dúvida instaurada sobre os rumos políticos e econômicos dessa decisão, gostaria de voltar a atenção para o crescimento do conservadorismo europeu com a ascensão dos partidos de extrema direita. Afinal, nesta semana a oposição austríaca conseguiu anular a eleição de um governo de centro-esquerda, apontando possíveis fraudes durante o processo eleitoral. As fronteiras se redesenham, apagando a prosperidade que antes houvera na região. Quanto tempo é necessário para esquecer uma guerra?

O primeiro ponto a ser dito é sobre o resultado do plebiscito britânico. Ao contrário do que muitos analistas estão tentando fazer, não trata-se de uma escolha boa ou ruim. Afinal, deve-se destacar a forma como fora conduzida a votação. É admirável o uso da democracia em forma de plebiscito. Não canso de dizer que o poder executivo e legislativo deve pertencer ao povo através da participação direta (sem a eleição de representantes), restando ao judiciário ser o outro lado da balança em um Estado de Direito através do sistema de contrapesos. Os cidadãos britânicos foram ouvidos e o mundo deve respeitar a sua decisão, quer esteja de acordo ou não. O modo pelo qual o Reino Unido deixou a União Europeia foi o mesmo que o colocou no bloco na década de 70. Os tempos são outros, as pessoas são outras e mesmo não estando de acordo é preciso aceitar. Afinal, democracia é isso: vence a maioria, estando com a razão ou não. Muitos vão dizer que a maioria é burra e por esse motivo defendo a educação como base para o Sistema Anárquico Democrático.

O segundo ponto a ser comentado é sobre as causas para este fim. Um rompimento não nasce do dia para a noite. É preciso entender que a relação entre "a ilha e o continente" tem um histórico de amor e ódio. Essas marcas se estenderam na aliança feita com o bloco, a partir da entrada da ilha ao continente. Não sou um historiador e por esse motivo não me aprofundarei nesse item. Mas vale lembrar a relação diferenciada do Reino Unido com relação aos outros países membros da União Europeia. Diferença essa refletida na moeda, sendo que o Reino Unido continuou com a libra, ao contrário dos demais que adotaram o euro como moeda única. Tal diferença também pode ser demonstrada no idioma utilizado, sendo que trata-se de um processo praticamente mundial a utilização do inglês como idioma universal. Como parte desse processo de diferenciação entre ilha e continente é possível apontar as guerras, sobretudo a Segunda Guerra Mundial, onde os ingleses foram os únicos que fizeram frente à Alemanha, em um cenário em que a Europa Ocidental já havia sido tomada pelos nazistas com os franceses dominados e a União Soviética em um acordo com Hitler de não agressão mútua. 

A nostalgia nacionalista, o desemprego e a xenofobia, que ganhou força com os movimentos migratórios da África e do Oriente Médio, podem ser apontados como os principais tópicos que levaram à saída. Nesse ponto creio que ambos não se justificam, tampouco se sustentam. É difícil entender como uma nação que colonizou todos os continentes (direta ou indiretamente) queira virar as costas para as sementes que ela mesma plantou. Isso se estende até ao Brasil, que durante a sua independência teve que pagar a dívida de Portugal com os ingleses. E quanto à exploração da Revolução Industrial, à repartição da África, à colonização de povos antes livres, ao mercantilismo desenfreado que ocasionou um capitalismo selvagem? Por que não barram também os árabes podres de ricos do petróleo? Falam tanto no roubo dos empregos. E os empregos que os britânicos supostamente "roubam" em outros países? É fácil aceitar latinos para limpar os banheiros, coletar o lixo e servir aos seus interesses. Difícil é querer dividir o poder com os demais. Não é de se estranhar essa atitude vinda de um país com expoentes conservadores, amantes da propriedade privada, da ganância pelo lucro, da submissão a uma Realeza ultrapassada. Os que votaram pela saída querem ganhar sem perder, o que me parece um sonho de uma noite de verão utópico, em alusão a Shakespeare.

O terceiro ponto trata-se das consequências que o Brexit pode gerar. O primeiro sintoma já sentido é o econômico. Isso é claro; afinal, em uma sociedade capitalista o dinheiro fala primeiro e mais alto. A gravidade está na força adquirida pelos movimentos nacionalistas e separatistas. Os setenta anos após o término da segunda Guerra Mundial parecem ter apagado as lembranças da intolerância, do choro e do medo. Como consequência, eu vejo uma agitação constante que tende a aumentar a violência global e o agravamento de conflitos e confrontos. A União Europeia é justamente o equilíbrio entre vizinhos problemáticos que sempre mediram forças entre si. A hegemonia continental é o sentimento oculto dentro de cada nação e a cada vez que a bandeira de uma nação é hasteada acima das demais, o ódio ganha passagem. A saída do Reino Unido é uma ação que pode gerar várias rachaduras, a começar pelo próprio Reino Unido. O monopólio da rainha está prestes a se fragmentar. As tensões aumentam na mesma velocidade e proporção do cheiro de sangue nos campos de batalha. As divisões ampliam e as fronteiras crescem, se estendem, se isolam. Segregação racial e religiosa que pode colocar em check os avanços humanos obtidos nas últimas décadas. Quem será o equilíbrio entre Alemanha e França? Quanto tempo é necessário para esquecer milhares de mortes?

O nacionalismo foi o mal do século passado e parece ser o mal deste também. A fraternidade entre os povos se afasta, transforma-se em ilhas. Cercas são construídas, uma nova cortina de ferro é erguida ou mesmo um novo muro de Berlim. No cálculo mundial existem mais subtrações e divisões do que adições, e a única multiplicação é a da incerteza e da descrença em dias melhores. A saída em si do Reino Unido não é o motivo central da minha preocupação, pois é perfeitamente aceitável a decisão democrática de um povo. O mundo não vai acabar com a saída dos britânicos e o bloco terá que se reinventar, o que não significa, necessariamente, algo negativo. O perigo mora no sentimento nacionalista crescente nos lares europeus. E esse sentimento se move rapidamente, atravessa oceanos e rompe continentes. Toda nação deve ser soberana e a sua autonomia deve ser respeita. Mas criar e reforçar fronteiras imaginárias não parece uma evolução humana. O regresso está na não aceitação e na vitória do terrorismo. 

Separar não parece ser a melhor forma de progredir.

sábado, 18 de junho de 2016

Reflexão sobre a sociedade capitalista globalizada

Tenho a sensação, nesses últimos meses, de estar em queda livre junto com o país. Quantos amigos mandados embora nessa semana e quantos mais serão? A cada dia o caos chega mais perto da porta de casa e sinto uma agitação na sociedade como se fosse uma bomba prestes a explodir. Enquanto isso, Brasília continua com as mesmas falas, discursos ensaiados antes mesmo de chegar ao poder, como o caso do presidente interino. Os erros da administração pública se repetem e quando penso estar no fundo do poço, repentinamente o governo do Rio de Janeiro decreta estado de calamidade pública. Talvez o apocalipse seja o colapso mundial presente nos quatro cantos do mundo na atualidade. E o que mudou de fato? Afinal, o dinheiro continua falando mais alto e a verba que volta aos cofres públicos não é nem metade daquela que foi desviada. Como sempre, o lucro pessoal em primeiro lugar.

Novas eleições se aproximam, mas é impossível não se sentir sujo em meio à lama. Votar em qual plataforma se a própria constituição nos condena à sujeira do capitalismo? O desprezo para com o comunismo deve ser o mesmo aos capitalistas. O projeto de terceirização é de assustar qualquer trabalhador. A força do trabalho perde valor e a mais valia se acumula nos bolsos dos grandes empresários. É a exploração moderna, é a escravidão que não cessa. O sistema vigente é aquele que interessa aos que detêm o poder e se política é a busca pelo poder, então a democracia está morta. Se o voto é obrigatório, então por que limitar a candidatura à filiação partidária? Se o voto é de todos então por que não há a disciplina de ciência política nas escolas? Pelo simples fato de não interessar à elite nacional. Toda essa discussão sobre democracia, seja de esquerda ou seja de direita, é irrelevante, pois ambas as partes não estão interessadas no poder na mão do povo. Eles querem apenas a opinião pública do lado para arrecadar mais votos em outubro.

E no meio do combate à corrupção surge uma aliança dos caciques dos principais partidos políticos para barrar a Lava Jato. É como diz o ditado das guerras: o inimigo do meu inimigo é meu amigo. A pergunta que me faço é quando entraremos de fato nessa guerra? Paralisar vias públicas traz mais dor de cabeça à sociedade do que ao Estado. Quando iremos bater na porta das Câmaras Municipais, Assembleias Estaduais e do próprio Congresso Nacional? O Estado de Direito não existe quando o mesmo não é comandado pelo Judiciário. E entre os candidatos à presidência, vices, presidente da Câmara e do Senado, eu prefiro os ministros do Supremo Tribunal Federal.

Estamos na pior devido ao pensamento individualista oriundo do sistema capitalista. E isso envolve todos os países e todas as classes. É o cidadão que quer furar a fila em benefício próprio, é o legislador que cria leis pensando em cartéis industriais ao invés de legislar para o povo. Um bom exemplo disso é a indústria bélica internacional, que dita as novas guerras. Afinal, de acordo com o raciocínio "lógico" do capitalismo, a guerra é um mal necessário que traz lucro e avanços tecnológicos. Então diga isso aos familiares dos inúmeros mortos em batalha. O sistema leva ao extremismo, seja religioso, racial ou mesmo nacionalista. E assim trabalhamos para satisfazer os senhores feudais contemporâneos, trocando o tempo de nossas vidas por espelhos. O que você vê de frente para o espelho?

A importância da nação e do indivíduo é feita pelo o que ele tem. Não importa quem você é, nem o que você faz. Tendo dinheiro tudo é passivo de ser esquecido. Enquanto isso os tributos não param de chegar e os direitos diminuem na mesma proporção que os deveres aumentam. Ninguém perguntou a minha opinião; sendo assim, não faço parte desse contrato social. O desemprego não para de aumentar e as pessoas estão ficando cada vez menos pacientes e mais agitadas. Quando essa agitação vai estourar? E quando isso acontecer não quero estar por perto. Apenas devemos deixar bem claro que isso não é anarquia e sim o capitalismo e suas consequências.

A sociedade capitalista globalizada é a política por meio do dinheiro. O dinheiro é a base do lucro. O lucro é o poder a qualquer preço. O preço é a submissão de toda uma sociedade. Sociedade é o conjunto de pessoas com características culturais semelhantes dentro de um determinado território. Território é a conquista do espaço por meio da força. Força é o poder coercitivo que leva à guerra. Guerra é a continuação da política capitalista por outros meios. Não adianta tapar o sol com a peneira, basta abrir os olhos. Cada vez nossa liberdade diminui com o aumento da violência. Trancados na própria casa, refém dos que não cumprem as leis. Muitos entendem capitalismo como liberdade, então me pergunto onde ela está. E quanto à igualdade e fraternidade? O sistema faz com que o poder seja corrompido e com que valores éticos sejam esquecidos. Do que vale o seu intelecto se a servidão a terceiros pode ser mais rentável e lucrativa? E assim o ser humano aceita a sua escravidão, pois terá um salário suficiente para sobreviver com o seu carro ou sua televisão nova. Que se faça a alienação.

Vivemos em uma sociedade de aparências em que vemos o mundo com os olhos alheios. Nosso ser passa a ser secundário, objetivando o status que só o capital pode nos dar no sistema atual. Desse modo concluo, refletindo que vivemos em um teatro de ilusões. Em uma alusão à Alegoria da Caverna de Platão, enxergamos apenas a falsa realidade trazida pela sombra externa. 


domingo, 5 de junho de 2016

Reflexão sobre a estadania

É de esgotar qualquer cidadão as notícias sobre corrupção na política. Esse poço parece não ter fim. Se por um lado o poder judiciário ganha destaque como nunca antes visto em nosso país, fazendo valer a Constituição através da Lava Jato e outras operações, por outro temos a real dimensão da sujeira instaurada nos poderes legislativo e executivo. Políticos de todos os partidos são citados como beneficiários em atividades suspeitas. No caso do legislativo, ao invés de criar leis para o bem público foram criadas propinas com o dinheiro público. No caso do Executivo, ao invés de executar a lei visando o bem estar social, eram executadas demandas para o interesse próprio e privado. Mesmo assim, caciques como Eduardo Cunha, Renan Calheiros e tantos outros continuam no poder. Em um momento conturbado como este, em que tanto se fala em democracia e cidadania, me questiono se não seria o caso de classificar como estadania.

Primeiro vamos conceituar cidadania, que é a soma dos direitos civis (liberdade de expressão), políticos (participação pública) e sociais (serviços sociais dignos e justos). Com isso, temos um contexto em que o cidadão é o dono do poder e governa, através dos seus representantes eleitos. Então nos perguntamos, por meio de comparação, o motivo pelo qual essa cidadania democrática não funciona no Brasil. Temos que ter em mente que a forma histórica de como a nação foi construída é diferente de países com os quais pretendemos comparar, como França e Estados Unidos. Há ausência de uma cultura enraizada na sociedade brasileira, onde sempre houve e continua existindo uma excessiva concentração de força no Estado. Daí o termo estadania.

Os princípios fundamentais de igualdade são postos à prova quando favorece políticos com foro privilegiado. Desse modo, nem a justiça é tão justa assim. Em uma democracia, as leis deveriam favores a maioria. Porém, aqui parece haver uma inversão de valores onde a democracia privilegia uma elite oligárquica que há muito está no poder. No sistema presidencialista em que vivemos, o presidente é visto como uma figura paterna onde o poder executivo parece estar acima dos demais. Um bom exemplo está na "reforma" prometida pelo então presidente interino Michel Temer, onde em plena crise econômica o mesmo cria 14000 novos cargos. Na crise o primeiro corte é o famoso cafezinho, mas será que ninguém vê a gravidade em que estamos metidos?

O Estado, com toda a sua soberba, continua a pagar altos salários, prevendo aumentos exorbitantes para secretários, deputados, vereadores, senadores e tantos outros. Enquanto isso, a máxima de sempre prevalece: aumento de impostos para o trabalhador sem nenhuma melhoria. Muito pelo contrário, o sistema público encontra-se em colapso. Basta ver o caos na segurança nacional e no sistema de saúde. Nesse ponto tomo como exemplo o Estado do Rio de Janeiro. O maior legado para os eventos internacionais como a Copa do Mundo e as Olimpíadas está no bolso dos organizadores. E quanto ao povo? Bem, o povo continua sem atendimento nos postos de saúde, continua morrendo por balas perdidas, continua sendo escravo do trabalho (pois trabalha para tentar sobreviver ao invés de trabalhar para atingir seus sonhos) e continua sofrendo abusos, como o caso do estupro coletivo.

O Estado parece alheio a tudo isso, não cumprindo com a sua missão de servir ao cidadão. O Estado é a perda parcial da liberdade dos seus cidadãos para garantir uma vida digna e com qualidade. A estadania encontra-se no nepotismo, no dólar escondido na mala, na propina por vantagens, na submissão do povo ao Estado, esse último detentor do direito da violência. A estadania está na política pelo interesse próprio, na votação do próprio aumento enquanto a população luta para ter o mínimo. A estadania está no foro privilegiado do político corrupto que continua recebendo benefícios públicos por um trabalho que ele não prestou. Qual o crime maior do que aquele em que o representante eleito pelo povo desvia a merenda escolar para obter lucro e status? Qual o crime maior do que aquele que constrói estádios e aeroportos desnecessários ao invés de investir em transporte de qualidade? Qual o crime maior do que aquele que tira da educação e da saúde para colocar em paraísos fiscais  ocultos?

Nesse sentido, espero que o leitor reflita sobre o papel do cidadão e sobre se a democracia x estadania. O Brasil tem suas particularidades de modo que não basta fazer uma cópia de um modelo internacional. Se a própria Constituição diz que é reservado aos Estados do Brasil tudo o que não é reservado à União e aos municípios, o que sobra é pouco. Então, por que não cortar a esfera estatal, deixando apenas as esferas municipais e federais? Os Estados são gastos que, no meu ponto de vista, poderiam ser cortados. Desse modo, seriam cargos a menos para serem sustentados e corruptos a menos para desviar verba pública. Questiono-me qual o motivo de não poder haver candidato avulso, prendendo o cidadão aos partidos políticos. Questiono-me o motivo pelo qual o plebiscito, o referendo e demais formas de participação pública são pouco usados. Se a democracia é do povo, a maioria do povo deveria decidir sobre os assuntos coletivos. A democracia cidadã não deve estar restrita a um pequeno grupo.

Muitos dos nossos direitos foram concedidos, mas devemos conquistá-los e fazer valer a força da união. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Reflexão sobre as crises

É inegável que hoje nos encontramos em uma crise. Crise: essa palavra é dita sem parar pelos meios de comunicação, no ambiente profissional, dentro dos lares brasileiros, nos bares e esquinas. Mas afinal, qual a sua origem? Crise do quê? Uma nação é marcada por diferentes tipos de crises em circunstâncias e momentos diferentes. Mas essa nova geração, dos jovens que possuem seus 20 anos, não havia testemunhada algo parecido. E até mesmo pessoas de 40 anos se assustam com o momento atual do país. Talvez pelo distanciamento de crises passadas, o que gera um certo abrandamento dos fatos; afinal, a pior crise sempre é a do momento, pois as demais já foram vencidas, deixando "apenas" cicatrizes. Mas a pergunta que todos se fazem, independente da idade, é: até quando?

Os fatos estão postos e não há para onde correr. É preciso encarar de frente a incerteza do futuro da qual, a única certeza é a de momentos difíceis para a população. Penso que o termo mais adequado a ser cunhado seja crises, pois vivenciamos atualmente um caos político (falta de identidade com os políticos que nos representam e que agem sem ética para com a democracia, agindo por interesses particulares) e um caos econômico (com a elevação de inadimplentes, onde cidadãos e o próprio Estado encontram-se endividados). 

A crise política tem suas origens desde a época do Brasil colônia (segundo alguns historiadores). Apesar de achar a afirmação verdadeira, tendo a não debitar a conta em Portugal; afinal, desde 1822 somos um país independente e tivemos tempo para construir uma identidade política própria e diferente dos vícios inseridos em nossa cultura pelos colonizadores. A própria ideia de que o Brasil é o país do futuro está gasta e demonstra a falta de credibilidade no aqui e no agora. O fato de instaurarmos uma democracia sem uma sociedade civil madura acentua a gravidade política. O cenário político do Brasil é marcado por oligarquias que vai desde a política do café com leite, passado pela ditadura, até aos tempos recentes, onde os representantes do povo na verdade representam os interesses de determinadas categorias inseridas na sociedade, como os incentivos às automobilísticas, o apoio à bancada agrícola, a troca de favores para com os empresários e até mesmo a tendência baseada em fatores religiosos, como a representação dos interesses da bancada evangélica. Vale lembrar que a cidadania nacional nasceu sem liberdade individual.

Desse modo, o todo fragmenta-se, sobressaindo-se os mais poderosos. Ou seja, entende-se por poderosos aqueles que detêm maior poder aquisitivo (financeiro), pois em uma sociedade capitalista, com bases mercantilistas, o acúmulo de riquezas é o verdadeiro diferencial e demonstração de poder. Assim, a população em geral é lembrada somente a cada dois anos, durante o momento eleitoral. Nessa hora os então candidatos travam um verdadeiro confronto em busca de cada voto. Basta recordar da última eleição para presidente, onde as propostas ficaram de lado (o que já ocorre há alguns anos) e as campanhas tanto do Aécio quanto da Dilma tornaram-se verdadeiros ringues eleitorais de acusações e ofensas públicas e explicitas. O fato da obrigatoriedade do voto diante de um cenário de candidatos desanimadores também deve ser citado como parte da crise.

Constituiu-se um governo sem os atributos necessários para comandar o país, fato que ficou claro logo nos primeiros meses de 2015. A questão é: quem colocar no lugar? A falta de novas figuras no cenário política torna o quadro alarmante, pois são sempre as mesmas caras e essas caras estão envolvidas em escândalos de conduta e desvio. A crise política não é um problema de um candidato, nem mesmo um problema recente. Veja o recém governo interino de Michel Temer: em duas semanas já obteve escândalos suficientes para desestabilizá-lo. Primeiro foi a ausência de mulheres em sua gestão, em seguida o corte / fusão de Ministérios importantes para a identidade nacional, como o Ministério da Cultura e o Ministério de Ciências e Tecnologia. Isso sem contar as polêmicas gravações da Lava Jato que não param de explodir tanto no Poder Legislativo quanto no Poder Executivo. Os alvos da vez são José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá (escolhido como ministro pelo governo Temer). Com isso, é possível concluir que a corrupção é um problema sistêmico e não exclusivo de um determinado partido. E as delações não param de chegar, apontando para o Aécio Neves e para o PSDB. Como se não bastasse, o PMDB terá que enfrentar o PT na oposição, algo que os petistas sabem fazer muito bem (ao contrário dos tucanos).

O que me preocupa são as denúncias do chamado acordão (que seria um pacto multilateral entre a classe política para barrar ou ao menos amenizar a conduta do poder judiciário para com os demais poderes). É preciso atenção da sociedade civil, dos movimentos sociais e da mídia para que esse pesadelo não se torne realidade. Temos que mostrar que aprendemos com a operação Mãos Limpas que ocorreu na Itália, para não cometermos o mesmo erro. Sei que a história muitas vezes se repete, mas sinceramente espero que esse não seja o caso.

A outra crise é a econômica. Essa, no meu ponto de vista, é a que causa maiores danos. Não que seja mais importante do que a crise política, até mesmo porque ambas estão relacionadas. Mas pelo fato de que esta impacta diretamente no cotidiano das pessoas. Não sou economista e por esse motivo não me aprofundarei em questões técnicas. O que quero demonstrar aqui é que a crise econômica é o fator determinante para a agitação social. Lembro-me das manifestações de 2013 que tinham um cunho mais social do que econômico. Elas foram importantes, mas poucas mudanças foram feitas. Ao contrário dessas manifestações de agora, de cunho político, mas fortemente influenciadas pela economia. Quando a economia entra em colapso, toda a estrutura social e estatal afundam junto, pois é assim que é em uma sociedade capitalista. 

O dinheiro é o antes e o dinheiro é o depois. Desde a dona de casa que vai ao supermercado para abastecer sua família até as ações do empresário. Tudo é definido pelo poder aquisitivo e todas as coisas materiais estão ligadas ao capital. Não só isso, a crise econômica não abala só a matéria, mas também relações, sentimentos e almas. Basta lembrar da grande depressão de 1929 quando a bolsa dos EUA quebrou. Muitos foram os casos de suicídios e patologias de ordem mental. A economia afeta o humor do cidadão e é por isso que temos o segundo caso de impeachment de presidentes no Brasil. A crise política, como dito nos parágrafos acima, sempre existiu e de certa forma é aceitável pela população, inclusive alvo de piada, desde que não interfira no bolso da população brasileira. O principal motivo pela queda do governo Collor em 1992 e agora do governo Dilma é o econômico. O processo político (com base jurídica na Constituição) foi apenas o meio pelo qual a economia encontrou em tirá-los do poder.

É com a crise econômica que vemos o aumento da violência, a ascensão da extrema direita, a briga por emprego, o aumento da intolerância, o aumentos dos confrontos de ruas e tantos outros sintomas negativos. É o pai de família que perde o rumo, é o político que se vê ameaçado, é o empregador que fecha empregos e assim vai. A incerteza econômica gera o mal estar social atingindo o ser humano em todas as suas instâncias. Se quisermos jogar as regras do sistema global atual então é necessário, sobretudo, a manutenção correta da economia (algo que o governo Dilma passou longe). 

Alguns amigos me perguntam sobre o governo Temer e qual o fator determinante para o seu sucesso. Para mim parece uma questão simples de ser equacionada (desde que sejam feitas pelas pessoas adequadas, sobretudo tecnicamente): deve-se realizar o ajuste da economia, refazer o ministério excluindo aqueles envolvidos em casos de má conduta pública (mesmo que ainda não condenados) e seguir a Constituição tal como ela é (evitando assim novos deslizes). Eu sei que o jogo político é uma via de mão dupla e que isso inúmeras vezes impacta as decisões do governante. Porém, esse é o momento de deixar o judiciário agir (não só através da Lava Jato) e se cercar de pessoas capazes de solucionar os problemas. É preciso mostrar o exemplo, deixar claro para a população que nesse cenário caótico todos têm seus deveres, assim como os direitos. Mudar de estratégia a cada semana que passa, conforme se desenha a opinião pública, parece-me uma fonte para o fracasso. Basta ver o então ministro José Serra já angariando opositores dentro do próprio Itamaraty, com a ideia de retirada de embaixadas específicas, estressando os diplomatas. 

Os gastos devem ser cortados, mas não a qualquer preço. Sei que o tempo é curto, mas é preciso planejamento. A impressão que esse governo passa nesses primeiros dias é de ações não tão maduras como deveriam ser, agindo de modo empírico para avaliar a reação da população. Muito se fala em aumento de impostos e reajustes da previdência, mas é preciso comentar também sobre o assistencialismo exacerbado. Não só com redução se atinge a plenitude econômica, mas também com fiscalização. Será que todos àqueles que recebem o Bolsa Família ou o Prouni realmente necessitam? E a bolsa presidiário, onde os detentos são mantidas às nossas custas?

Planejamento e fiscalização são fundamentais para o combate às crises econômica e política.

sábado, 14 de maio de 2016

Reflexão sobre a desigualdade

É de se espantar ao abrir o jornal e ler que as 62 pessoas mais ricas do planeta detêm a mesma quantia de 4 bilhões de pessoas. São todos seres humanos, mas não são iguais. Pertencem a mundos diferentes, diferentes realidades. É possível afirmar que não há igualdade de condições dentro da igualdade em ser humano. E a utopia da igualdade nos direitos e deveres se esfacela diante dos privilégios políticos dos novos ministros, acusados dos mesmos crimes daqueles depostos. Portanto, pode-se concluir que ser desigual é ser diferente e que ser diferente não significa ser uma vantagem na maioria dos casos (ao menos para 4 bilhões de pessoas espalhadas ao redor do globo terrestre). Não basta uma análise estatística. Pois bem, para essa reflexão vamos tentar utilizar os métodos quantitativos, qualitativos e comparativos que carregamos em nossa passagem pela vida.

Então qual é o problema em se ter desigualdade em uma sociedade cada vez mais individualista? Afinal, essas são as consequências de um capitalismo globalizado desenfreado onde o bem estar pessoal vem antes do bem estar coletivo, onde o trabalho vem antes do próprio indivíduo e da sua família. Nem os laços sanguíneos são capazes de se manter. Assim sempre fora: a perseguição às minorias que nem sempre são minorias em número (como no caso do apartheid na África do Sul). O mesmo se reflete na sociedade machista, mesmo em um planeta onde existe uma maioria feminina. Também é possível citar o mito da "superioridade europeia" diante da maioria indígena do "novo continente". Se desigualdade é não ser igual, então é sinônimo de diferença. Portanto concluo que desigualdade é separar.

Ora, mas o questionamento do início do parágrafo anterior não fora respondida. Qual o problema em ser desigual quando se defende um sistema de consumo predatório e individual? Afinal, temos a liberdade tão sonhada de outrora. Falta algo. Falta fraternidade e compreensão mútua. A igualdade reside na aceitação das diferenças. É fácil julgar, criticar, apontar o dedo. Chamar de terroristas e marginais àqueles que lutaram (e morreram) pela liberdade que existe hoje em nosso país, ainda que não seja plena. É fácil idolatrar a democracia e condenar àqueles que morreram na ditadura lutando por ela. Difícil é fazer melhor.

Ser desigual é fomentar os movimentos de extrema direita, é fomentar o fanatismo, o nacionalismo exacerbado. Não é de se estranhar que desde que o homem saiu do seu estado de natureza as guerras passaram a ser frequentes. E o pior: são tidas como motores do desenvolvimento e do progresso. Não há como ter o distanciamento sugerido pelos positivistas diante do fatos atuais. Fatos como o crescimento de adeptos ao neonazismo. Fatos como o aumento do nacionalismo, inclusive brasileiro. Fanatismo esse que atende a interesses próprios e não sociais. Algo que se assemelhe ao fascismo de Mussolini, mas com outras cores e outras bandeiras. E novamente as mulheres são expulsas do governo federal, e novamente movimentos migratórios são barrados. Refugiados de guerra são devolvidos à estaca zero enquanto a Europa assisti a fragilização daquela que seria a maior união do mundo. Os russos invadem a Crimeia e os ingleses pedem divórcio da União Europeia.

Em uma alusão a Rousseau, infeliz daquele que cercou um terreno e o chamou de seu. Infeliz daqueles que não o impediram e fizeram o mesmo. Eis a sociedade com suas bases na propriedade privada. A desigualdade faz com que tolos governem sábios em busca de reputação e poder. O poder, sempre o poder. Das cercas dos primórdios aos muros contra imigrantes. Vejo uma movimentação mundial à direita. O que dizer de Trump? Será que o Muro de Berlin foi realmente derrubado? E o culpado sempre é o vizinho do lado. Leis fundamentam a legalidade. Porém, legalidade não é sinônimo de legitimidade. Portanto, concluo nesse parágrafo que leis fundamentam a desigualdade ao serem criadas para manter o status quo daqueles que estão no topo.

Se a democracia vem do povo e para o povo, então por que não consultá-lo? E por que aceitar aquilo que fora determinado sem questionar? O certo e o errado são conceitos que variam com a evolução da mente. E para evoluir o pensamento não são necessários confrontos físicos ou guerras. Não sou a favor do comunismo e quero deixar claro isso. Mas sem igualdade não há fraternidade. Portanto concluo que sem fraternidade não há humanidade. Afinal, se o ser humano é um animal racional social e está se isolando, então não há o que comemorar. Nem o progresso das máquinas, nem o avanço da economia. O preço é aquilo que está no rótulo. Há uma inversão de valores, pois é mais importante ter do que ser. E o ser está indo contra o que o tornou ser o ser que é. Ser humano é ser igual, mesmo sendo diferente. Não que todos devam ser clones dos outros. Apenas ser com igualdades de condições para poder diferir através de suas próprias escolhas. Agir por conta de um determinismo não é agir com liberdade.

A desigualdade reside no afastamento lento e gradual e desse modo até mesmo a liberdade não possui graça. 

sábado, 30 de abril de 2016

Reflexão sobre o impedimento

Este blog nasce com o intuito de refletir sobre a sociedade. Nada melhor do que iniciar com o fervor nacional que domina a política. O impedimento da então presidente Dilma Rousseff é a notícia predominante referente ao país e pela segunda vez, na jovem e frágil democracia brasileira, o famoso impeachment entra em ação.

Vejo as pessoas nas ruas comemorando a aprovação da Câmara dos Deputados como se a solução dos males fosse tão simples. Caro leitor, lhe pergunto o que comemorar? Pessoas comemorando com camisas da seleção brasileira de futebol cuja a entidade CBF sofre o maior escândalo explícito de sua história com a prisão de um de seus membros mais importantes e vários outros caciques da FIFA (todos acusados de corrupção). Comemorar o teatro dos deputados como se fosse a partida final de um campeonato de futebol? O jogo da política é mais delicado do que o fanatismo cego e ignorante.

Vamos começar pela história do país. Após a proclamação da independência, fomos regidos por uma monarquia que fora derrubada em 1889 por militares e membros da elite deste território. Instaurou-se a república de acordo com os interesses de poucos, sendo que muitos na época assistiam a cena pensando ser alguma festividade qualquer, sem saber a fundo do que se tratava. A República da Espada teve vida curta, sofrendo com as várias revoltas que surgiram. Começamos então a política do café com leite, onde a oligarquia do Brasil chega ao poder e comete irresponsabilidades neoliberais até que a crise de 29 põe um fim ao ciclo, perdendo espaço para o golpe populista de Getúlio (o que se estendeu até 1945 com a volta da democracia). 

Em 1964 um novo golpe, dessa vez militar (mas com o apoio da elite nacional). A democracia novamente foi deixada de lado por interesses próprios e o fervor que existe nos dias de hoje foi visto também naqueles dias refletindo "as duas torcidas" do jogo da época: capitalistas x comunistas (reflexo da Guerra Fria). Àqueles que lutavam pelo fim da ditadura foram perseguidos, presos, torturados e muitos sonhadores foram mortos. E quando finalmente a democracia começa a nos sorrir novamente, Tancredo morre, e assume Sarney. Na eleição dos anos 90 Collor ganha a eleição e se inicia a "nova democracia nacional". Creio que começamos com o pé esquerdo. Vale lembrar que nas eleições de 89 o atual presidente da Câmara, o famoso Eduardo Cunha, impediu a candidatura do ilustre apresentador Sílvio Santos, o que colocaria sério risco para a campanha do então candidato Fernando Collor.

O então presidente eleito comete ato de corrupção (o já conhecido caso Elba) e o processo de impedimento é aberto contra o mesmo. De lá para cá pedaladas fiscais foram cometidas por todos os presidentes. Ora, se vivemos em um Estado de direito e seguimos a Constituição Federal, um crime é um crime, independente de quantas vezes fora cometido. 

Mas acontece que, apesar de um Estado de direito, o impedimento envolve questões jurídicas e políticas, dando margem a manobras de interesse de acordo com alinhamentos oligárquicos. A opinião pública, expressada pelo monopólio da notícia não imparcial, apoia o impedimento que muitos sustentam ser a causa de todos os males de um país que repete os erros e os problemas da sua história. E o que aprendemos com o passado? Que a decadência do sistema educacional gera a desinformação, o que interessa aos políticos e meios de comunicação que pretendem manipular a população. Não podemos fazer com que a cada nova crise financeira os presidentes, legitimamente eleitos, sejam depostos assim como técnicos de futebol são mandados embora a cada derrota expressiva. Se a presidente cometeu crimes ela deve ser punida, assim como qualquer outro cidadão.

Sou a favor do impedimento desde que ele tenha base jurídica e sirva para todos os casos. Como não sou jurista não entrarei no mérito. Mas o que não podemos esquecer é da impunidade dos governos anteriores que cometeram os mesmos crimes e daqueles que continuam cometendo na atualidade. Que sejam impedidos os corruptos e não somente o governo executivo federal. Que as pedaladas estaduais e municipais sejam analisadas e que os culpados sejam punidos de acordo com a jurisprudência aberta. Que a democracia se baseie cada vez mais na justiça e que essa justiça seja livre e igual para todos os cidadãos. Não podemos nos esquecer das acusações sobre Eduardo Cunha, do mensalão mineiro, do aeroporto do Aécio, das denúncias sobre a merenda no estado de São Paulo e sobre os casos do metrô envolvendo o governo do Alckmin.

Que a política perca o seu sentido histórico de busca pelo poder e que a democracia seja a política para o bem da sociedade e não a luta por interesses próprios. Que os vices não sejam oportunistas como o Michel Temer e que as casas dos cidadãos sejam realmente a voz do povo e não essa política do pão e circo que vemos atualmente. Que o povo tenha educação de verdade para que a palhaçada da votação na Câmara não volte a se repetir, afinal, esse é o reflexo do Brasil. Que os capitalistas abram a mente para um bem maior e geral.

Que a política e a justiça sejam sinônimos de liberdade, igualdade e fraternidade.