terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Reflexão sobre o Pequeno Príncipe

Uma rosa vermelha e três vulcões
Nada mais puro do que a simplicidade
Inocência nos desenhos não compreendidos
A intolerância é o mal do século
Falta de imaginação adulta
A gente cresce e se apaga 
Queima aos poucos
Perde o brilho sem curtir a brisa da calda de um cometa
Pégaso continua no céu estrelado
Quem tem tempo para isso?
Uma hora de almoço
Está tudo cronometrado
Contado como as contas que não param de chegar
E a vida passa, escorre pelos dedos

O Pequeno Príncipe está mais modernoso em 'La Planète du Temps'
Fonte: https://veja.abril.com.br/entretenimento/o-pequeno-principe-muda-e-ganha-um-ar-mais-moderno/

Uma rosa vermelha e três vulcões
Um deles inativo
Quem se importa?
O velho absolutismo totalitário de sempre
Agenda lotada, um drink e uma selfie para curar a angustia
Prazer que acaba rápido
Basta ver os cachorros de rua, os moradores de ponte
A vida é curta, mas por vezes demora uma eternidade
Donos da verdade em um concretismo gélido e seco
Apenas a voz da infância é capaz de ressoar
Um carneiro para comer as árvores do terreno
Planeta pequeno, mas para que uma casa gigantesca?
No mundo das grandiosas ostentações vence quem se mostrar mais
Presente nas redes, ausente em casa
O essencial é invisível
Além do sexto sentido
Ninguém consegue nada sozinho
O mais importante é o tempo que dedica a algo
Um "oi", um "bom dia"
Ninguém é obrigado a dizer "obrigado"
Uma lembrança, um carinho
Uma viagem surpresa, visita de última hora
Não custa nada
O problema é valorizar somente o que tem preço
Quanto vale uma pessoa? Quanto custa um amor?
Basta dedicar um tempo para falar e ouvir
Uma ligação, uma mensagem
Fotos envelhecidas na parede da sala
"As pessoas são solitárias porque constroem muros ao invés de pontes"

Imagem de book, art, and little prince
Fonte: https://weheartit.com/entry/203855705

Uma rosa vermelha e três vulcões
Isso já basta (ao menos deveria ser o suficiente)
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"
Deixar a casa para viver uma aventura pelo espaço
O universo é maior do que o nosso umbigo
Sentimentos ambíguos: uma rosa, mil espinhos
Um piloto perdido no deserto do Saara
Quem iria acreditar?
A realidade é dura
O amor deve ser cultivado
Quem sabe plantar sementes na areia?
Cavaleiro contra moinhos de vento
Divergências deveriam ser naturais
Mas e esse tal de radicalismo?
Abrigos ou abismos?
Uma raposa companheira
Uma breve passagem
Beleza mesmo na terra árida da paisagem
Quem precisa de mais?
Alguém do lado nos bons e maus momentos
Uma mãe cantando cantigas de ninar
Um pai contando histórias para sonhar
O resto é secundário

Fonte: http://www.euteamohoje.com.br/2015/08/o-pequeno-principe-5-licoes-do-livro-que-virou-animacao/

Uma rosa vermelha e três vulcões
Um pequeno planeta para se dar voltas
Ver as estrelas, assistir os cometas
A beleza do céu nos olhos do coração
Além das luzes da cidade
Quem tem tempo para isso?
Basta um carneiro e uma caixa
Um avião quebrado no meio da estrada
Absurdo? Impossível?
A esperança permanece intacta
Um verdadeiro cavalheiro
Príncipe melhor do que o de Maquiavel
Havia uma serpente no meio do caminho
Tal qual Eva e Adão?
Talvez sim, talvez não
Nunca se sabe
A convicção plena pertence aos ignorantes
Uma mordida perfeita, um veneno fatal
A morte é uma dádiva para os seres vivos
É o aviso crucial para se viver a vida
Sem tempo ou sem dinheiro?
Difícil ter tudo

pequenoprincipe2
Fonte: https://super.abril.com.br/blog/turma-do-fundao/5-motivos-para-ler-o-pequeno-principe/

Uma rosa vermelha e três vulcões
Um rei que governa o vazio
Perdidos no espaço sideral
Do que adianta as ordens sem ninguém para ouvir?
Um amigo vale mais do que ouro
Mesmo que a distância dificulte as coisas
O bêbado e o equilibrista
A euforia da droga para mascarar a melancolia sem fim
Quem nunca?
Um problema, um vício
Um homem de negócios ocupado
Sentado na sua poltrona confortável
De nada vale
Os ponteiros não param
Apropriando-se de coisas indevidas
Fechando os olhos para o que não lhe convém
Parece familiar?
Cumprir o dever
Realizar as tarefas sem saber o real motivo
Ascender lampiões para iluminar o planeta
Há nobreza na intenção de um abraço
Um sol distante, um calor humano
Um geógrafo ocupado
As estrelas também se apagam
Um astrônomo não escutado
A descoberta de B-612
Julgado pelas roupas, menosprezado pela comunidade
Racismo, preconceito, xenofobia
Isso existe ainda?
Um vaidoso que necessita de elogios
Talvez hoje seriam likes
Sozinho em si
De nada vale
Porque os ponteiros não param
Presos em números
Esquecem do ser humano
Esquecem de ser para ter
Chorar também faz parte
Não é uma questão de força
Mas de sensibilidade e sustentabilidade

Uma rosa vermelha e três vulcões
"É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar"
Embarcam no trem sem saber a próxima estação
A seriedade mata
O passado aprisiona, condena
Enquanto isso é preciso viver
Eu vejo uma montanha ao longe
Eu vejo o movimento pela janela da sala
O sol se pondo, a noite chegando
Existe coisa melhor do que isso?
Um sorriso, um beijo
E então tudo faz sentido
Ao longe apenas uma casa e uma árvore
Longe de tudo e de todos
Dentro da própria simplicidade
Afastados do barulho, do trânsito, da poluição
Um mar de esperança quando já estou cansado
Uma oportunidade para abrir a janela
Quem abrirá as portas?
É preciso regar as flores
Cuidar dos animais
Um último suspiro para não se arrepender
Pois nada é eterno, nada é para sempre
Um pequeno príncipe
Um último suspiro para fazer valer a pena
Viver.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Reflexão sobre os 30 anos da constituição brasileira e sua caracterização

A Constituição Federal brasileira esteve em destaque em 2018 tanto pelos trinta anos de sua promulgação quanto pelas inúmeras citações no período eleitoral. Alguns a defenderam, outros propuseram alterá-la e houve até mesmo quem desejou extingui-la por meio de uma nova constituição elaborada por notáveis (perpetuando assim a oligarquia nacional). Neste post, o foco será a caracterização de uma constituição, ao contrário do texto elaborado em fevereiro cujo cunho fora mais generalista.

Constituição é a norma que diz quais são os limites dos poderes do Estado, sendo responsável pela estruturação do país. É a base da ordem jurídica contendo direitos e deveres dos membros da sociedade. Tida como o poder originário, a constituição é a mãe das demais normas nacionais. Ou seja, trata-se da pedra fundamental que estará no topo da hierarquia jurídica juntamente de eventuais tratados internacionais que venham a ser assinados. Tem-se como características do poder originário: (a) inaugural; (b) autônomo; (c) ilimitado; (d) incondicionado.

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Fonte: http://obviousmag.org/arcano_do_aleph/2017/da-constituicao.html

Conceitualmente, é possível afirmar que existe o poder derivado capaz de alterar o texto original por meio das emendas constitucionais. Entretanto, para serem aprovadas as Propostas de Emenda Constitucional (conhecidas também por PECs) se faz necessário, no caso brasileiro, aprovação em âmbito federal de 3/5 dos membros das casas em dois turnos (duas vezes) de votação nas duas casas do Congresso Nacional (Câmara e Senado). Há de se ressaltar que as cláusulas pétreas não podem ser alteradas. As leis orgânicas dos municípios e leis estaduais seguem o mesmo princípio respeitando a formação regional das casas e eventuais limitações de cada ente federativo. 

Sobre as classificações, é possível dividir as constituições, de um modo compacto e superficial, da seguinte maneira: (a) quanto ao conteúdo - materiais ou formais; (b) quanto à forma - escritas ou não escritas; (c) quanto ao modo de elaboração - dogmáticas ou históricas; (d) quanto à origem - promulgadas ou outorgadas; (e) quanto à estabilidade - rígidas, semirrígidas, flexíveis ou imutáveis; (f) quanto à extensão - analíticas ou sintéticas. 

Assim sendo, pode-se concluir que a Constituição Federal de 1988 do Brasil é analítica quanto à extensão, pois traz questões diversas com assuntos específicos relacionados ao trabalho e emprego, educação, ciência e tecnologia, indígenas, etc; não se restringindo assim à organização do Estado e garantias fundamentais. A mesma é rígida quanto à estabilidade, pois o processo para alterá-la é complexo e exige articulação política. É promulgada quanto à origem porque foi elaborado por meio de um processo "democrático", não sendo imposta por um poder dominante. É dogmática quanto ao modo e escrita quanto à forma, pois foi sistematizada conforme o direito positivo e princípios jurídicos. Por fim, é formal quanto ao conteúdo porque está codificada em um único volume, caracterizando-se assim por sua rigidez e supremacia sobre as demais normas.

Fonte: http://www.assufrgs.org.br/2018/01/05/artigo-30-anos-da-constituicao-de-1988/

Já é possível notar o peso dos seus 30 anos. Isso não significa que tudo esteja errado. O maior problema do Brasil não são as leis (que são numerosas e burocráticas até demais), mas sim o descumprimento das mesmas por parte das instituições e da população. Outra falha que deve ser apontada é a falta de fiscalização e acompanhamento da aplicação das leis. Por vezes as normas são severas demais em casos pequenos, noutras as normas são brandas em casos graves. Existe também a questão das leis passarem por políticos que, em alguns casos, estão mais preocupados com a própria pele do que com o bem-estar social do país.

Sem sombra de dúvidas há explicitamente a politização do judiciário que interfere no equilíbrio entre os poderes e lança neblina sobre as respectivas atribuições. Como exemplos é possível citar os casos de discórdia no STF (Supremo Tribunal Federal) dando margem a diferentes interpretações da lei (o que causa um racha no tribunal) e do ex-juiz Sérgio Moro, que em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em 2016 afirmou que jamais faria parte da política, contrariando a si mesmo ao aceitar um cargo político do então presidente eleito em 2018 e colocando em xeque a suposta imparcialidade que se exige de um magistrado em suas sentenças.

O cerne da questão parece estar na capacitação (educação) da população e no fortalecimento dos meios de fiscalização do que necessariamente uma ruptura com a constituição vigente. É fato que a mesma é extensa demais e necessita de alguns reparos, ser mais concisa, clara e direta. Entretanto, os indivíduos que falam em elaboração de uma nova constituição são os mesmos que sonham com um poder autoritário e abusivo. A verdadeira democracia (governo em que o povo exerce a soberania) reside na anarquia (ausência de um governo central); mas, na atual conjectura, trata-se apenas de um sonho distante, pois nenhum de nós estamos preparados para tal nível evolutivo organizacional. Até lá, a meta é atingir a estabilidade das poliarquias dos países bem-sucedidos.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Reflexão sobre o término do governo vampiresco

Por definição, o vampiro é uma figura que se mantém alimentando-se da vitalidade das outras criaturas por meio do sangue. Sobre diferentes aspectos (tanto físico presente no imaginário popular quanto no âmbito político-social) é inevitável a comparação entre o atual líder do poder executivo e tal ser mitológico. Com o término de 2018 encerra-se também o mandato do então presidente. Portanto, trata-se de um momento oportuno para refletir os fatos e analisá-los tendo o cuidado de não cometer o crime de anacronismo. Afinal, há o que temer?

O governo de Michel Temer teve início em maio de 2016 devido ao processo de impedimento aberto por Eduardo Cunha e aceito pelas duas casas do "exemplar" Congresso Nacional contra a então presidenta eleita em 2014. O novo presidente assumiu o cargo em meio a uma crise econômica do governo no qual o mesmo já fazia parte, prometendo amplas mudanças por meio de reformas para atingir o tão almejado crescimento financeiro. Como bem se sabe, muitas reformas vieram, mas o sucesso esperado não chegou.

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Fonte: http://www.tribunadainternet.com.br/por-que-michel-temer-nao-emplacou-como-presidente-da-republica/

Antes mesmo de assumir o trono principal do governo brasileiro, Temer já havia mostrado descontentamento com a chapa da qual fazia parte chegando inclusive a escrever uma carta demonstrando insatisfação e indicando uma ruptura futura. As motivações para tal desabafo possuem origens nas manifestações populares de junho de 2013 (que de certa forma marcam o início da crise econômica e política), a operação Lava Jato (iniciada em março de 2014) e a insatisfação partidária da classe política em 2015 com a manutenção do PT (Partido dos Trabalhadores) por mais um mandato após a reeleição de Dilma. Como é possível notar, Michel reagiu aos fatos que acuavam o governo.

O vice virou presidente em mais um clássico da política real repleta de conspirações e traições. A típica puxada de tapete do até então aliado, fogo amigo intencionalmente letal. A promessa era  a salvação republicana do Brasil, o eterno país do futuro. Novamente um novo estelionato eleitoral foi cometido, repetindo a baixaria protagonizada por Aécio e Dilma no ano anterior. Prometeu uma agenda reformista dentro dos moldes do velho neoliberalismo conservador brasileiro, reforçando o antagonismo entre os conceitos. Isso posto, o resultado já era previsível e cá estamos constatando os fatos. Não se trata de torcer contra ou pelo pior, mas sim a constatação de padrões que se repetem.

O personagem Conde Temeraire do Zombicide (Foto: Reprodução/Kickstarter)
Fonte: https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/06/michel-temer-vira-vampiro-em-jogo-de-zumbis.html

O vampiro limitou os gastos com educação e saúde (pilares fundamentais até mesmo para uma suposta agenda neoliberal), retirou direitos de trabalhadores, reformou o ensino com uma proposta vazia, pois ao invés de acrescentar qualidade e quantidade para o estudante brasileiro, o mesmo compactou o sistema educacional. O que o vampiro não contava é que sua máscara cairia em pouco tempo. Por meio de denúncias da Lava Jato foi comprovado que Temer e seu partido estavam tirando do país, manchando assim o "belo exemplo" da alta cúpula que usurpou o poder com o discurso de colocar a casa em ordem. O PMDB inclusive mudou de nome, tirando o "P" de partido na tentativa de iludir os cidadãos em uma falsa limpeza, passando a se chamar MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Apenas palavras ao vento.

Uma gravação na calada da noite entre Joesley Batista (um dos donos do grupo JBS) e Michel Temer veio a público e desmoronou o país. Chamada também de delação do fim do mundo, ali se comprovou a ampla participação entre políticos e empresários em casos de corrupção. Ou seja, o problema em questão é sistêmico, não se restringindo apenas a um indivíduo ou partido. 

Após o escândalo nacional, o governo vampiresco vem lutando apenas para se manter no poder e sobreviver com o pouco que resta. Foram dois pedidos de impedimento de Temer que só não passaram pelo Congresso porque o mesmo molhou a mão dos parlamentares por meio de verbas públicas, ultrapassando a casa dos bilhões de reais. Pois é caro leitor, a compra de votos tão caraterístico dos primórdios coronelistas do país continua nos gabinetes, seja de forma disfarçada ou explícita.

PMDB ou MDB? Até lideranças estão confusas com a alteração
Fonte: https://www.gazetaonline.com.br/noticias/politica/2018/04/pmdb-ou-mdb-ate-liderancas-estao-confusas-com-a-alteracao-1014127737.html

Sem moral ou estima para continuar a agenda reformista cujo objetivo principal era sugar o sangue do cidadão brasileiro, o governo não conseguiu concluir as propostas assumidas, como a reforma da previdência. Na verdade, foi um grande erro de cálculo, pois com a manutenção de Dilma e do PT no poder o desgaste seria tão grande que os mesmos não teriam a força que tiveram nas eleições de 2018. 

O que Temer fez foi acentuar desnecessariamente a crise, jogando o país para uma polarização extremada. Além disso, o governo vampiresco atingiu o maior índice de rejeição com apenas 5% de aprovação da população. O tiro saiu pela culatra e o MDB perdeu parte de sua relevância nacional. No futuro descobriremos o quão curta é a memória do eleitor brasileiro. 

Para não cometer injustiça, não se pode colocar na conta de Temer polêmicas recentes que representam um atraso para o país, todas oriundas do governo de transição de Bolsonaro que ainda nem assumiu e já causa mal-estar internacional como o ocorrido com a França sobre questões climáticas, Palestina sobre a mudança da embaixada brasileira (impactando a relação com outros países árabes), China e Cuba por questões puramente ideológicas contrárias.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=7wdZWlkhA10

A greve dos caminhoneiros foi o estopim para enterrar o governo e a economia. Sem renda não há consumo. Sem consumo o sistema permanece na UTI (Terapia Intensiva). Os panelaços em prol da ascensão de Temer cessaram, ficou apenas o constrangimento. O atual governo sairá pela porta dos fundos e agora, sem o foro privilegiado, muitos dos que fizeram parte da equipe terão que enfrentar a justiça. Afinal, o partido tem uma longa tradição nesse aspecto, sobretudo a ala carioca. Basta ver os casos de Pezão e Sérgio Cabral que afundaram a cidade maravilhosa. Eles conseguiram piorar o que já estava ruim desviando o dinheiro público para os próprios bolsos.

Como se não bastasse a própria incompetência, o governo vem utilizando como desculpa a greve dos caminhoneiros para tentar explicar os resultados insatisfatórios. A habilidade que os membros tiveram para negociar o afastamento dos pedidos de impedimento com os parlamentares não se repetiu para elaborar pontes de diálogos com a classe trabalhadora, sobretudo com os caminhoneiros. Fora a denúncia que paira sobre Temer referente à questão de envolvimento ilícito com empresas do Porto de Santos. 

O resultado de políticas oligárquicas é o aumento da pobreza no país, queda na qualidade de vida, manutenção do alto número de desempregados e um abismo na clivagem social. O vampiro que foi presidente do partido, presidente da Câmara e presidente do país pode agora perder o trono e se tornar presidiário. Aquele que se autodeclarava o símbolo da democracia instaurou um estado de anomia no país abrindo portas para um futuro incerto. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Reflexão sobre a sexta-feira negra (black friday)

Evento de consumo iniciado nos Estados Unidos como uma forma de inaugurar a temporada de compras natalinas que se popularizou durante a década de 70 e posteriormente foi propagado para o mundo, sobretudo para os países ocidentais que possuem essa cultura de apreço ao acúmulo, status e aparência. Presente no Brasil desde novembro de 2010, a data já se tornou um evento garantido no calendário do país (como sempre se espelhando no exemplo vindo do seu ídolo do norte). A sexta-feira negra sempre ocorre em novembro como uma forma de preencher o "vazio" entre outubro (caracterizado pelo dia das crianças e halloween) e dezembro (caracterizado pelo natal e preparativos para o ano novo). Uma data a mais para gastar, um fetiche, uma fantasia.

Semana negra, mas não pelo dia da consciência. O estímulo às compras é inerente ao sistema, pois capitalismo é consumo e não há tipificação maior do que o processo de compra e venda em massa. Afinal, a propaganda diz que você precisa adquirir tal produto, mesmo que não seja uma real necessidade. O apelo ao consumo é tanto que em todos os anos não são raras as imagens de pessoas formando filas e se espremendo dentro das lojas para adquirir itens supostamente em promoção. Em alguns casos as pessoas estão ali para pegar qualquer coisa, o que vier primeiro. Uma ótima forma de se endividar!

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Fonte: http://www.fr.de/wirtschaft/black-friday-wahnsinn-made-in-the-usa-a-291997

O comércio agradece, pois o último trimestre do ano é aquele que apresenta melhores resultados nos indicadores que aferem a economia. Seja por meio do e-commerce (lojas virtuais) ou pelo tradicional modo de compras físicas, o fato é que a black friday não para de crescer. O faturamento por parte dos empresários é tanto que nos últimos anos ultrapassou a barreira dos bilhões de reais gastos. A sexta-feira negra está tão abrangente no país que praticamente tudo é comercializado; produtos, bens e serviços: turismo, móveis, imóveis, carros, artigos infantis, utensílios domésticos, farmacêuticos, cosméticos, entre tantos outros. Logicamente que tal fato gera empregos temporários, mas o prazo de validade é curto.

Trata-se de uma verdadeira anarquia do capital sem nenhum tipo de regulamentação ou organização central. Cada empresa realiza as suas promoções dos produtos que melhor lhe convir. Cada loja dá os descontos que achar conveniente sem a interferência de governo, associação ou qualquer tipo de entidade. Abusando das estratégias de marketing, a black friday desperta os desejos do consumidor e aflora a impulsividade irracional do ser humano. Cabe ao cliente ficar esperto. Compra quem quer, quem pode, quem necessita ou não. Nada melhor do que curar uma decepção com o cartão de crédito carregado. É psicológico, dizem os especialistas. Quanto aos outros resta assistir ao abismo da clivagem social. Negócios são negócios, marcas, subprodutos. Nada pessoal, um salve ao consumismo!

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Fonte: http://www.anarquista.net/natal-do-consumismo-consumo-desenfreado/

É inevitável falar de sexta-feira negra sem comentar sobre as fraudes. O oportunismo de um bom negócio muitas vezes rompe a barreira da legalidade e da moralidade tornando inúmeros os casos de propaganda enganosa ou mesmo de golpe. Os casos vão desde anúncios que ofertam produtos inexistentes até mesmo casos de entrega de mercadorias com falha ou de valor inferior ao adquirido. Isso sem contar as denúncias que apontam aumento proposital dos preços das mercadorias para, posteriormente, abaixá-los anunciando uma "nova promoção imperdível". É a lei do mercado: oferta e procura. O neoliberalismo sem controle e sem equilíbrio tão sonhado de forma utópica. No final das contas o resultado é o mesmo: trata-se da lei do mais forte.

Boa parte das fraudes ocorre no ambiente virtual, mas esta não é uma exclusividade das vendas online. Por vezes, a doce e prazerosa ilusão da compra torna-se uma dura realidade na justiça. Afinal, ninguém quer perder a oportunidade de ostentar em um momento tão único de celebração ao consumo e é justamente nesse momento de desatenção e vulnerabilidade que os indivíduos são passados para trás. O sustento do capitalismo é o consumo desenfreado, qualquer coisa fora isso é crise. Mas o que comprar, quando comprar, como comprar se boa parte da população mal consegue se manter no dia-a-dia? Como viver com qualidade e conforto se mal é possível sobreviver? Um sacrifício desnecessário em prol da inutilidade. Você é o que é ou o que tem?

Fonte: https://www.hardware.com.br/noticias/2017-11/blacky-friday-brasileira-movimentou-em-2017-48-bilhoes-nas-lojas-virtuais.html

Vitrines repletas de produtos, mercadorias em off, condições imperdíveis, parcelamento no cartão em até doze vezes sem juros. Todos querem fazer parte do fluxo, correndo na mesma direção, disputando supérfluos, brigando para ver quem consegue mais com o menor preço. Rastejando-se na entrada das lojas entupidas de pessoas agindo como vermes, um sobre o outro, um por cima do outro, nada mais característico do que a nossa condição animalesca. Compre, venda, mude, troque, consuma, tenha, mostre, divulgue, compartilhe, ostente. Corra, pois é por tempo (i)limitado. Black friday, week or month. Não importa. Tudo tenha, nada seja, tenha tudo, seja nada.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Reflexão sobre os fluxos migratórios

Nos primórdios da humanidade o nomadismo (aquele que não tem habitação fixa e que vive em constante mudança) era uma condição comum. Mudava-se em busca de terras férteis, comida farta, clima favorável para a sobrevivência. Com o aperfeiçoamento das técnicas de plantio, extrativismo, coleta de alimento, invenção da propriedade privada e progressiva ascensão da tecnologia, o ser humano passou a se fixar em um local determinado, sem a necessidade de constantes deslocamentos. Entretanto, as pessoas continuam mudando, por vezes para obter um salto na formação acadêmica, noutras para fugir da fome e do frio. Mas, ao contrário da liberdade de fluxo de outrora, agora as portas insistem em se fechar, assim como as fronteiras (linhas imaginárias que separam fisicamente os povos ao invés de uni-los).

Segundo o site Significados pode-se definir migração como movimento dentro de um espaço geográfico de forma temporária ou permanente. Pode ser caracterizado como fluxo de entrada (imigração) ou saída (emigração) de indivíduos em busca de melhores condições de vida. Por motivos econômicos, religiosos, políticos, culturais ou até mesmo ambientais, pessoas abandonam suas raízes rumo ao incerto. Em muitos casos é a única alternativa. Em situações extremas, as condições são tão precárias que abandonar tudo é menos pior do que permanecer.

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Fonte: http://www.cidadaocultura.com.br/migracao-e-relacionamentos/

Quanto à tipologia é possível classificar entre migrações internacionais e internas. No primeiro tipo há o deslocamento de um país para outro dividindo-se em: (a) imigração - entrada de indivíduos ou grupos em outro país; (b) emigração - saída de indivíduos ou grupos de seu país de origem configurando-se no oposto do conceito referente ao imigrante. Portanto, é possível notar que a diferença entre ambos está no ponto de vista de quem os vê. Controle e fiscalização são necessários, mas não se pode esquecer as próprias origens e perder a essência humana. Nem sempre o mais fácil é o melhor a se fazer. Quem nunca precisou de uma mão estendida para ter uma oportunidade de se levantar?

A xenofobia (aversão a indivíduos ou coisas estrangeiras) também é um fator que paira sob o olhar de cada indivíduo, sobretudo em tempos de protecionismo, nacionalismo e extremismo. A xenofobia é caracteriza pela deficiência de empatia em se colocar no lugar do outro gerando preconceito por meio de uma visão puritana de superioridade. No fundo, são todos feitos de carne, osso e sangue que nasceram e morrerão independentemente de crença, etnia, classe social ou cor. Assim sendo, se faz necessário limpar as próprias lentes com frequência.

Fonte: https://www.institutoliberal.org.br/blog/migracao-cultura-e-o-principio-da-presuncao-de-inocencia/

Sobre as migrações internas é possível classificá-las em: (a) êxodo rural - deslocamento do campo para a cidade; (b) êxodo urbano - deslocamento da cidade para o campo; (c) urbana-urbana - deslocamento de indivíduos de uma cidade para outra (zonas urbanas); (d) pendular - tipicamente de regiões metropolitanas e grandes perímetros urbanos no qual a pessoa se desloca de sua cidade de origem para outra cidade por motivos de trabalho ou estudo, retornando à cidade de origem ao final do dia (cidade dormitório); (e) sazonal - caracterizada quando o migrante sai de sua cidade em determinado período do ano (geralmente ligada às estações) retornando posteriormente.

A indiferença é uma situação recorrente na atualidade. É mais fácil fechar a porta do que estender as mãos. Ninguém quer admitir o sangue nativo do indígena, a descendência africana, a miscigenação comum. Querem ser os americanos que desprezam aqueles que constroem os prédios, que limpam as ruas, que faxinam as casas, que lustram os sapatos, que cuidam dos bebês, que mobilizam militares para combater civis desarmados, que iniciam uma guerra comercial. Querem ser os europeus que fecham as fronteiras depois de dividirem o mundo, explorar recursos, subjugar povos moldando-os de acordo com a sua própria lente eurocentrista. A cultura é o que somos de fato.

Fonte: http://www.comciencia.br/origem-e-destino-migrantes-sofrem-violencia-em-todas-as-pontas-da-jornada/

É o filho que parte para estudar, o pai que sai em busca de um emprego, a família que foge das bombas, o bairro que some devido à lama de uma barragem que se rompe. É o indivíduo que corre da seca, da estiagem, do frio extremo, da miséria. É o deslocamento por um sonho ou simplesmente esperança por dias melhores. É a procura por abrigo, um lugar seguro, talvez apenas um abraço que afaste a violência e a insegurança. É a oportunidade de trabalho, uma chance de sobreviver. É o deslocamento do medo, muitas vezes involuntário, sem destino certo. São os olhares indiscretos da vizinhança, os irmãos separados na fronteira, a mãe que só deseja um lugar melhor em meio ao caos da guerra. É a família que permanece unida orando em um campo de refugiados.

domingo, 11 de novembro de 2018

Reflexão sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é o principal evento dentro da agenda acadêmica dos estudantes do país até o ensino médio. Tamanho peso chega a ser desproporcional dentro do grande calendário cujos estudantes são submetidos ao longo do período escolar. Basicamente, em dois dias os alunos colocam em jogo o destino de uma vida de estudos até então. Ou seja, duas provas que buscam aferir o conhecimento adquirido em mais de dez anos em salas de aula.

O ENEM foi criado em 1998 objetivando inicialmente avaliar a qualidade do ensino nacional com ênfase ao período do ensino médio. Sob a responsabilidade do Ministério da Educação (MEC) e realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP), o projeto logo se desenvolveu para o ingresso de estudantes no ensino superior. Atualmente, o seu resultado serve como porta de entrada para as principais universidades públicas do Brasil por meio do Sistema de Seleção Unificada (SISU). 

Fonte: http://noticias.universia.com.br/cultura/noticia/2017/11/02/1156370/5-dicas-dia-prova-enem-2017.html

Também é utilizado para o ingresso em instituições privadas e faculdades no exterior como, por exemplo, algumas universidades portuguesas. Através do processo seletivo é possível obter bolsas (parciais ou integrais) pelo Programa Universidade para Todos (PROUNI) ou conseguir financiamento estudantil por meio do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES). Portanto, a abrangência do exame se ampliou de forma considerável, impulsionada, sobretudo, pelas gestões federais no início do século XXI. Para se ter uma ideia, o ENEM é considerado o maior vestibular do país e o segundo maior do mundo, segundo o RankBrasil (ficando atrás apenas da China).

O mesmo foi concebido inicialmente para somente um dia de prova com 63 questões. Posteriormente, o número de questões pulou para 180 e uma redação dividindo-se assim em dois dias de exame. Alvo de algumas polêmicas como temas abordados e denúncias de vazamento de questões marcam a história do exame que busca se aperfeiçoar com o tempo. A problemática aqui não é o método de prova do ENEM em si, mas o sistema de avaliar mais de uma década de estudo do aluno em apenas algumas questões diversificadas em dois dias de aplicação do exame. 

A responsabilidade e, consequentemente, a pressão embutida nos ombros dos jovens é enorme. O resultado final das provas pode não condizer com a carreira estudantil do aluno. Defendo um modelo de meritocracia que leva em consideração a vida acadêmica do estudante, seja integral (contemplando os ensinos fundamental e médio), seja por meio de um corte (levando em consideração apenas o desempenho durante o ensino médio). O método de avaliação por duas provas gera um acúmulo de assuntos e estresse, sem contar os gastos públicos com a realização do evento. É necessário investir na ampliação de disciplinas do ensino médio para o período integral com mais prática de esportes, jogos lúdicos, planejamento familiar, economia doméstica, noções de manutenção residencial, introdução ao direito, etc; e não a compactação de disciplinas com redução de investimentos.

ENEM 2019
Fonte: https://edemocracia.camara.leg.br/expressao/t/gabarito-enem-2019/59048

Uma análise de desempenho por aluno de acordo com sua vida acadêmica daria subsídios para investimentos mais robustos nos conteúdos e recursos de sala de aula (incluindo o professor, principal ferramenta neste processo). O acompanhamento semestral representará muito mais a realidade do que apenas dois dias. O ingresso ao ensino superior deve estar atrelado aos resultados anteriores obtidos por cada aluno, incluindo no pacote não somente as notas em si, mas também o fator comportamental. Não adianta ir relativamente bem nos testes e agredir colegas, depredar o patrimônio público ou desrespeitar professores e demais funcionários. O foco deve estar no conhecimento e não na decoreba. Para tanto, é preciso haver monitoramento para auxiliar o estudante e fiscalização na rotina escolar.

O ENEM é um processo que está em constante transformação em busca da melhoria contínua. A autonomia de suas autarquias deve ser mantida, ao contrário da interferência defendida pelo presidente eleito sobre questões da prova. Cada um no seu quadrado, desempenhando as funções relativas à sua respectiva caixinha e respeitando o trabalhado desenvolvido pelas entidades responsáveis. Entretanto, condicionar o ingresso às universidades por meio do desempenho curricular anterior do estudante é um processo mais justo para todos (alunos, professores, governo e instituições de ensino).


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Reflexão sobre as relações internacionais do Brasil

O Brasil possui uma longa tradição diplomática no cenário internacional; afinal, os Estados mantêm relações entre si. Formalmente, cada país é semelhante aos demais no que diz respeito às funções desempenhadas porque não há um Estado que comande os demais, constituindo-se assim um sistema descentralizado. Em um planeta cujas barreiras foram ultrapassadas por meio da tecnologia e do próprio processo de globalização, um acontecimento do outro lado do mundo é acompanhando ao vivo por qualquer pessoa que possua acesso à internet. Assim sendo, as relações internacionais são essenciais para o desenvolvimento das nações. Cada governo que assume o poder é responsável pela manutenção ou alteração dos acordos exteriores.

Segundo o artigo 4° da Constituição Federal são expressos os princípios da não-intervenção, autodeterminação dos povos, cooperação internacional e solução pacífica dos conflitos. Tal política externa deve ser construída pelo poder executivo federal com o apoio do Ministério das Relações Exteriores (conhecido também por Itamaraty). Portanto, o âmbito diplomático é responsável por acordos, negociações e representações. Logicamente que cada governo possui sua respectiva visão de mundo, mas esta deve estar de acordo com os fundamentos básicos das relações externas.

faculdade de Relações Internacionais
Fonte: http://www.estaciocarreiras.com.br/blog/tudo-sobre-o-curso-de-relacoes-internacionais/

Historicamente, o Brasil possui forte relacionamento comercial (presente em todos os continentes do globo) e neutralidade em busca da paz com relação a conflitos entre nações. A preferência por relações com países desenvolvidos se deve pela troca de produtos e interesses. Todavia, nas últimas décadas o país ampliou sua presença em países do eixo sul, participando ativamente em diversas frentes de integração regional. Membro da ONU (Organização das Nações Unidas) e do Mercosul (Mercado Comum do Sul), o país se vê agora sob um novo dilema internacional voltado para a cópia das políticas externas dos Estados Unidos.

Primeiramente é preciso entender as características e identidades do país, pois por mais simples que pareça é preciso afirmar que o Brasil não é os EUA. Portanto, qualquer ação feita de antemão terá uma tratativa e impactos diferentes nos atores envolvidos. Uma coisa é a principal potência atual, tanto economicamente quanto militarmente, bater de frente com a China em uma guerra comercial e em outros assuntos delicados. Outra coisa é um país em desenvolvimento sem grandes interferências externas querer adotar as mesmas práticas. São atores diferentes cujos contextos serão diferentes.

O que são Relações internacionais do Brasil?
Fonte: https://www.stive.com.br/3975-relacoes-internacionais-do-brasil.html

O governo eleito pretender estreitar as relações com Israel e EUA, o que obviamente é uma afirmação favorável ao país. O problema está na renúncia da neutralidade em conflitos externos que não dizem respeito ao país como, por exemplo, imitar os estadunidenses na transferência da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, confrontando diretamente os interesses árabes. 

Vale lembrar que o Brasil movimenta bilhões por ano em transações comerciais com estes mesmos países árabes. Assumir um posicionamento desnecessário nessa situação seria uma canelada inicial. O presidente eleito já afirmou não reconhecer a Palestina como um Estado, contrariando um posicionamento já adotado pelo Brasil e pela ONU. Novamente: a relação estratégica entre Israel e Estados Unidos é muito diferente da relação entre o Brasil com os demais. É preciso ser realista, somos muito mais dependentes.

Outra questão polêmica é a saída do Mercosul. Desse modo, o presidente eleito planeja realizar acordos bilaterais ao invés de acordos em blocos. Assim, o país viraria as costas para os seus vizinhos em um ato de buscar apenas o benefício próprio ao invés da colaboração regional. Neste caso é preciso ressaltar que o Brasil tem amplas negociações com a Argentina e o impacto de uma eventual retirada do país no bloco será negativa. Tudo está interligado e é preciso ter cuidado para não se perder com as peças do quebra-cabeça.

Fonte: http://internacionalamazonia.blogspot.com/2013/10/curso-de-relacoes-internacionais-da_22.html

O Brasil é grande exportador de matéria-prima tendo pouca relevância no sistema internacional no que diz respeito à inovação e pesquisa. A competitividade industrial e capacidade de investimento são baixos, daí resulta que no geral países subdesenvolvidos carecem da manufatura e tecnologia de outro país subdesenvolvido (e não o contrário). Em um sistema capitalista o resultado final é o custo-benefício. Se o país não é competitivo em termos de valor de mercadoria e/ou qualidade do produto não há muito o que chorar em possíveis novas relações diplomáticas. O protecionismo vai contra o próprio neoliberalismo defendido por integrantes do novo governo e pode transformar o Brasil em uma ilha.

O presidente eleito disse não ser ideológico, mas suas propostas provam o contrário. O mesmo afirmou durante o período eleitoral que mudará as relações com a China (país este maior parceiro tanto em exportação quanto em importação). Ele afirmou que não permitirá que o Brasil seja comprado pelos chineses. O novo regime diz não compactuar com os regimes venezuelanos, cubanos e chineses; entretanto, não aplica a mesma retórica para parcerias com os sauditas, Guiné Equatorial e demais ditaduras. 

Bolsonaro, assim como o seu ídolo Trump, vira as costas para o diálogo e fecha os olhos para contradições. Desse modo, perde espaço internacional e relevância política. A participação  internacional do Brasil como a realizada no Haiti pelo exército é essencial para a manutenção de um Estado que soma ao invés de dividir, pacificador e neutro. Lavar as mãos para questões próximas, sem dialogar, só faz a imagem do país retroceder no exterior. Talvez a solução seja alugar o Brasil.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Reflexão sobre o homem invisível

Somente o amor salva
Um homem caminha sozinho pelo asfalto
Pé no chão, descalço
Revirando entulho para conseguir sustento
Afinal, onde se vê lixo ele vê futuro
Atravessa a cidade das cinco da manhã até cinco da tarde
Acorda cedo, dorme cedo
Deita para não pensar, para não ter fome
Exausto pela rotina
Trabalha sete dias por semana
Sem pão nem leite no café da manhã
No escuro ele carrega o carrinho para recolher os itens descartados
Reutilizando e reciclando para que o planeta tenha um fôlego extra
Faz para sobreviver
Ninguém quer ser coadjuvante dentro da sociedade
Mas as pessoas estão tão ocupadas ultimamente
Presas em suas próprias telas
Celas eletrônicas da pós-modernidade
Telas de celulares, computadores, televisão

Fonte: http://supercomentario.com.br/2011/02/07/50-fotos-do-homem-invisivel/

Agora todo mundo é dono da verdade
Um homem só caminha
Um olhar indiscreto, incrédulo
Olhos de preconceito
Com seu fiel cachorro ao lado
Continua honesto apesar de ser maltratado
Ele é quem puxa a carga
O carrinho pesa nos ombros
Dói as costas, dói as pernas
Passa sem ser visto
Cabelo comprido, barba por fazer
Tanto faz a cor da sua pele
Apenas mais um homem invisível
Um número real que parece imaginário
No rosto aparenta cinquenta anos de idade
Possui um pouco mais da metade
Sociedade de clivagens, castas que fingem não ver
Quem vai passar a roupa, limpar a casa, recolher os resíduos?
Apenas sombras
Sapato velho, roupa rasgada
Um ser humano sem direitos
Não precisa de nada?
Alguém para lavar, limpar, catar
Mão-de-obra gratuita
Quem se importa?
Desde que deixe o município limpo e bonito
Quem se importa?
O homem caminha sozinho pelas ruas
O que é a vida para quem já está morto?
Respirando para poder respirar
Nada mais natural e significativo
Apenas mais um dia dentro da incerteza do amanhã
A única justiça é a divina
Pois a morte não discrimina ricos ou pobres
Leva a todos sem qualquer distinção
Uma flor ou uma arma na mão?
Enquanto isso o homem invisível caminha
Apenas ele e o seu cão no carrinho
Somente o amor verdadeiro salva
O resto é interesse e enganação
Ele passa sem ser percebido
Por ele passam os carros
Só é notado quando "atrapalha" o trânsito
Nessas horas as buzinas o fazem lembrar de que está vivo
Uma luta diária rumo ao desconhecido
Morando em um barraco de um cômodo perto do rio
Apenas sombras

Fonte: https://www.notibras.com/site/descubraa-influencuia-sexo-oposto-no-seu-inconsciente/

Viadutos, pontes, marginais
Às margens da sociedade
Ele só queria uma oportunidade
Mesmo assim não reclama
Não tem ninguém para conversar
O pequeno amigo só escuta
Por vezes parece entender
Ele olha as crianças brincando
Lembra da sua infância sofrida
Não reclama, apenas suspira
Imagina como é ter uma casa, carro, família
Ele acredita em milagres
A fé é a única que dá forças para continuar
Ele sabe que se cair é preciso levantar
Pois ninguém estende a mão de graça, a não ser para empurrar
A cada segundo o tempo se esgota
Desejando um mundo melhor
Somente o amor verdadeiro salva
Mas as pessoas confundem amar com armar
Brigam por coisas desnecessárias
Silenciam por coisas importantes
O homem invisível caminha
Talvez a sorte mude, nunca é tarde para sonhar
No fundo ele sabe o que muitos nunca saberão
Que somente o verdadeiro amor salva
Seja um beijo da namorada, um gato, um cão
No fundo ele sabe e segue vivendo
Um homem morto caminha
Mas ele vive
Nunca é tarde demais para acreditar
Enquanto isso o homem invisível caminha
Passa sem ser notado
Caminha
Apenas um homem que ninguém vê
Apenas caminha
Um homem invisível
Somente o amor salva.

domingo, 28 de outubro de 2018

Reflexão sobre os resultados do 2° turno

As urnas decretaram o fim do 2° turno e a relação dos eleitos agora está completa. É possível ouvir nas ruas os fogos de artifício, os tiros de apoio e as buzinas como se fosse a final de um campeonato ou mesmo final do ano. As escolhas foram feitas e a partir do ano que vem os caminhos serão percorridos. Muitos comemoram como se fosse uma vitória, mas ainda não há troféus ou dados concretos a serem celebrados. Trata-se apenas do "pré-jogo" e de nada valerá o carnaval eleitoral de agora se os eleitos não andarem para a frente. É preciso saber vencer e governar do mesmo modo que é preciso saber perder e fazer oposição, independentemente da cor da bandeira em prol do bem coletivo.

Sem grandes novidades, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro do PSL (Partido Social Liberal) como presidente com 55,13% dos votos válidos enquanto que o estado de São Paulo elegeu João Doria do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) como governador com 51,75%. Os números apontam que ambos não obtiveram uma larga vantagem com relação aos seus concorrentes, o que significa que terão de mostrar trabalho para superar as rejeições e conseguirem o mínimo de autonomia para a governabilidade. Parte da apatia pode ser notada pelos não votos para a cadeira presidencial com 21,30% de ausentes, 7,43% de votos nulo e 2,14% de votos em branco.

Ilustração de duas pessoas pintando muro vermelho de azul
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45757856

Em Minas, Romeu Zema do NOVO obteve 71,80% e no Rio de Janeiro Wilson Witzel do PSC (Partido Social Cristão) conquistou 59,87% dos votos, sendo estes dois as grandes surpresas do 1° turno que se consolidaram. A euforia de quem votou nos eleitos contrasta com a melancolia de quem se sente desamparado no momento. O veredito da população foi dado dentro do determinismo característico do sistema eleitoral e político brasileiro. No final das contas, os eleitos se beneficiaram mais pelo fracasso e rejeição de seus opositores do que por méritos próprios, pois sobraram acusações e faltaram propostas. Por enquanto não há motivos nem para alardes nem para comemorações.

O que passou é passado e agora resta ao país inteiro aguardar os desdobramentos das escolhas feitas. Muitas pessoas colocaram a mão no fogo por candidatos e/ou partidos que agora foram eleitos; portanto, os mesmos devem se prevenir para não queimarem as mãos e a língua. Em um ambiente polarizado a exacerbação é eminente e se faz presente desde as redes sociais até mesmo no seio familiar. Não deixa de ser um passo no escuro sem saber se o que está à frente é terra firme e próspera ou o início de um precipício. É necessário resistir ao menor sinal de retrocesso, sobretudo com relação aos valores humanos.

Resultado de imagem para eleições 2018
Fonte: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/album/2018/10/28/eleicoes-2018-veja-a-votacao-do-segundo-turno-pelo-brasil.htm#fotoNav=1

Os cidadãos clamaram por renovação. O slogan que muitos repetiram foi "mudança já". Mas, na frieza dos resultados, não há grandes novidades. O futuro presidente do Brasil é um deputado de carreira por praticamente três décadas, sendo que os mesmos que votaram nele em âmbito federal votaram também no partido que governa o estado de São Paulo desde 1995 (24 anos de hegemonia tucana). Logo, o discurso do "novo" fica comprometido ao analisar os números que apontam mais do mesmo. É a festa do antipetismo. Vale lembrar que a vida do cidadão é pautada pelas decisões dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) nos três entes federativos (municipal, estadual e federal). Portanto, acreditar na culpa isolada de uma pessoa e/ou partido é pura ilusão.

O PSL é sem dúvidas o grande destaque no geral das eleições de 2018 tanto no executivo quanto no legislativo, sobretudo devido ao sentimento contrário ao establishment brasileiro. Mesmo assim ainda não é possível afirmar que o status quo foi alterado. O PT (Partido dos Trabalhadores) manteve-se forte no legislativo nacional e no executivo nordestino, mas precisa de novas lideranças. Já para o PSDB a salvação foram os governos do Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e São Paulo, mesmo assim com grandes dificuldades (com exceção do Paraná). O MDB (Movimento Democrático Brasileiro) sai enfraquecido em 2018. Nitidamente os partidos tradicionais precisam se reinventar. Não à toa houve a ascensão de partidos como PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e NOVO em menor escala, além do já mencionado PSL.

Presidenciáveis - Com Fernando Haddad
Fonte: https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,resumo-das-eleicoes-2018-bolsonaro-sobe-para-26-em-pesquisa-ibope-e-haddad-candidato,70002497835

Obviamente que a cada ciclo espera-se melhoras, evolução, progresso. É natural do ser humano querer mais. Todavia, tanto entusiasmo inicial pode se transformar em decepção daqui quatro anos. O psicólogo Erik Erikson já dizia no século passado que a esperança é a virtude primordial e indispensável na condição de estar vivo. Sendo assim, é necessário manter os pés no chão para não se perder. Promessas são doces e fáceis, mas atos geralmente são difíceis e amargos, pois é impossível agradar a todos. Em linhas gerais, não tem como ter muito mais do que se tem sem tirar algo do próximo. Esse é um grande desafio para qualquer gestor público, diferentemente do que acontece no setor privado.

Por enquanto o Brasil ainda não é a Itália fascista de Mussolini, nem a ditadura venezuelana de Maduro. Atualmente somos o que sempre fomos desde o fim do período imperial: os Estados Unidos da América do Sul, uma cópia barata dos EUA. Se eles tiveram o primeiro negro como presidente nós tentamos imitar com a primeira mulher. Se eles possuem um demagogo protecionista como presidente, nós acabamos de eleger o nosso. Se eles podem usar armas livremente e mensalmente terem assassinatos em escolas e igrejas, nós também desejamos isso. Se eles estão polarizados entre democratas e republicanos, nós também queremos a nossa própria rachadura.

Fonte: https://www.tecmundo.com.br/internet/133923-15-dias-redes-sociais-faturaram-r-2-milhoes-eleicoes-2018.htm

Estados Unidos da América do Sul ou simplesmente Brasil se preferir. Igual ao que fomos desde a independência: sem autonomia, sem identidade própria, apenas a tentativa de uma cópia geralmente piorada. Inclusive o nome desta nação já foi Estados Unidos do Brasil. Dependência e admiração que só aumentam com o tempo, mesmo quando os próprios estadunidenses não dão muita bola para os tupiniquins que aqui habitam. Pena não termos as bandas de rock de lá como o Pearl Jam. Afinal, o inglês já é a língua estrangeira presente em nossas grades curriculares. Daí para transformá-la em idioma oficial é só um passo, ainda mais em um mundo globalizado. Como diria Cazuza: "eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para".

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Reflexão sobre o Leviatã brasileiro

As pessoas precisam de algo para acreditar, alguém em quem confiar, mesmo racionalmente sabendo que dificilmente suas expectativas serão atendidas. Um protetor, um salvador, um patriota, um ditador, um guerreiro, um profeta: não importa a nomenclatura ou crença, desde que suas projeções sejam minimamente atendidas. Cobertos de uma moralidade não praticante, palavras são tão perigosas quanto atos. Em momentos de incertezas e instabilidade global, o objetivo é a própria sobrevivência por meio da segurança. Qual segurança? Econômica, social, política, familiar, individual? Todas as fichas em quem acabar com todo e qualquer crime, independentemente se isso tenha um alto custo. Ganhos e perdas, conforme manda a vulnerabilidade.

Segundo a mitologia, Leviatã é um monstro marinho primitivo mencionado na Bíblia. Criatura aterrorizante, de grandes proporções representando o medo, o caos, o pecado. Evitá-lo era necessário para qualquer navegante na antiguidade. Somos os navegantes pós-modernos e o Leviatã é o monstro que assola o território nacional. É a violência que derrama sangue pelas ruas e faz com que a demanda por segurança seja fator determinante, mesmo que para isso qualquer coisa seja válida. É quando a emoção negativa vence a razão. Um novo carnaval a cada quatro anos com poucas boas opções e más escolhas para governantes, seja no âmbito municipal, estadual ou nacional. A oligarquia brasileira teima em não ser poliarquia, do mesmo modo que a poliarquia europeia teima em não ser democracia.

Fonte: https://www.periodicovas.com/la-otra-historia-de-buenos-aires-35/

Para Thomas Hobbes, os seres humanos são egoístas por natureza e para combater a violência inerente à humanidade seria necessário um contrato social entre as pessoas para a criação de um Estado poderoso e absolutista, denominado por ele de Leviatã. Em seu livro escrito em 1651, o Leviatã político é necessário para a manutenção da ordem (discurso de tão antigo que soa recente). Assim sendo, a sociedade deveria abrir mão de sua liberdade e igualdade para a construção de um ente acima de tudo e de todos. 

No Leviatã de Hobbes, o primordial para o Estado é o provimento de segurança. O Estado, para ele, deveria ser forte, intenso, agressivo, influenciador, dominante de tal modo que punisse severamente qualquer desvio, mantendo assim a segurança. É necessário refletir aqui que a defesa por segurança representa muitas vezes a ação da violência ou mesmo a guerra em questões referentes às relações internacionais. Portanto, a suposta manutenção da ordem não é sinônimo de paz. O objetivo primeiro do contrato social seria a constituição de um soberano com plenos poderes, superior aos demais, pois assim este poderia comandar a todos sem a intervenção da sociedade e de outros poderes que poderiam causar algum tipo de inconveniência e levar ao caos.

The poulp brandished the victim like a feather
Fonte: https://www.oldbookillustrations.com/illustrations/victim-feather/

Poder centralizado, ausência de legislativo, ausência de judiciário, falta de participação ativa da população; discurso muito familiar. Falta contrapontos para equilibrar um sistema prestes a falir. Segundo o psicólogo Stanley Milgram, os humanos são socializados para serem obedientes, obrigados a acatar os comandos de uma figura autoritária, mesmo quando entram em conflito com valores morais. Consequentemente, as pessoas agem conforme as ordens que recebem, mantendo as relações autoritárias. Em alusão ao pensamento de Zygmunt Bauman, tais personagens trocam florestas por jardins para possuírem total controle sobre as flores, agindo como verdadeiros jardineiros na escolha de quem deve morrer e quem devem receber a luz do sol.

Obviamente que a sociedade brasileira anseia por segurança e paz, mas focar na primazia coercitiva do Estado para punir violência com violência sem qualquer ação preventiva e de inteligência demonstra apenas falácia. No âmbito administrativo existem planos emergenciais (corretivos) e planos a longo prazo (preventivos). Chumbo trocado em nome de Deus não parece ser a melhor alternativa tanto na esfera política quanto religiosa. Em tempos cujos cidadãos são movidos pela angústia o resultado futuro é imprevisível.


Fonte: http://www.filosofianaescola.com.br/2012/05/leviata-videoanimacao.html

O Leviatã representa a dominação em vez do governo. O antipolítico não quer fiscalização, leis, controles ou qualquer outra forma de monitoramento. É o velho disfarçado de novo, o lobo em pele de cordeiro. Vencer se tornou mais importante do que propriamente governar. Falta um cobertor que cubra todos os filhos da nação em dias difíceis e frios porque até agora só é perceptível a separação. Irmãos que matam irmãos em um ciclo sem fim. Ao invés de união usam armas como solução. Seja como for, parece que o Brasil (sempre tido como o país do futuro) gastou a sua cota do amanhã possuindo apenas uma frágil reserva escassa.

Relações gastas, sem confiança ou empatia. O Leviatã são os outros ou nós mesmos? A sociedade cada vez mais terceirizou os seus problemas jogando tudo para o Estado e para Deus. A crise só reforçou a liquidez presente em que falta forma. Cada um por si contra todos, defendendo os próprios interesses. Falam em consenso da opinião pública. Quão pública que não passa da somatória de interesses individuais? Qual consenso ou opinião se nem debate tem? Apenas uma forte propaganda para as massas e ataques. O brasileiro passou a ser refém das próprias práticas, mais consumidores do que produtores. Uma verdadeira Torre de Babel em que cada um fala uma língua, idiomas diferentes dentro da própria casa. Quem vai comprar? Quem vai pagar a conta?

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Reflexão sobre os resultados do 1° turno

Fim do primeiro tempo e o desenho do jogo político brasileiro já se define. Em uma eleição marcada pela desidratação do PSDB e MDB, o PSL sai como a grande novidade diante dos anseios de uma população que há anos clama por renovação. A divergência prevaleceu diante da união. A polarização entre azuis e vermelhos permanece: de um lado do ringue tem o petismo que há décadas protagoniza a centro-esquerda e do outro o tradicional ódio anti-petista, dessa vez representado pelo PSL (substituindo o PSDB). Uma eleição de ressentimento e medo. A questão é verificar como tais mudanças se comportarão quando os mandatos se iniciarem em 2019. 

Começando pelo cargo de maior visibilidade no país, a cadeira presidencial ainda não está definida, mas tende a Jair Bolsonaro. Caso o mesmo mantenha a mesma votação no segundo turno precisará de apenas mais 4% dos votos válidos. Portanto, está a um Alckmin de distância da faixa presidencial. Tendo-se em vista que o seu eleitor está cristalizado e que historicamente o líder do primeiro turno sai como vencedor também do segundo, então a probabilidade de uma reversão no quadro é possível, mas a vantagem é de quem venceu a primeira rodada. Em um exemplo simplista é como se Bolsonaro vencesse o primeiro jogo da final necessitando apenas de um empate para levar a faixa.

Resultado de imagem para eleição 2018
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/eleicoes-2018-datas.ghtml

Os dois candidatos que vão para o segundo turno representam a intenção de 3/4 dos eleitores brasileiros. É preciso respeitar o resultado. O fato é que qualquer um que avance encontrará dificuldade para governar tanto pela situação econômica quanto pelo impasse político diante da necessidade de tomada de decisões importantes e por vezes impopulares. Adiciona-se ao pacote o alto índice de rejeição de ambos. De certa forma não deixa de ser um segundo turno de escolha do menos pior, pois nem sempre quem ganha a batalha vence a guerra. O principal adversário de Haddad é o próprio partido. 

O PSL surfou na onda Bolsonaro obtendo resultados expressivos no Congresso. Na Câmara dos Deputados passou de 1 cadeira em 2014 para 52; no Senado passou de 0 para 4 cadeiras. A ascensão repentina do partido até então nanico assemelha-se ao que ocorreu nas eleições de 1989 quando Collor foi eleito presidente e levou consigo outros membros do PRN, partido de pouca expressão. 

Mesmo assim MDB e PSDB ainda são maioria no Senado com 12 e 8 cadeiras respectivamente. Já o PT será o maior partido na Câmara com 56 deputados eleitos. Articulação política será necessária para a governabilidade. O PP, outro partido atolado em casos de corrupção, manteve-se forte no Congresso com 6 cadeiras no Senado e 37 na Câmara. Todos queriam mudança: mudou, pero no mucho.

Resultado de imagem para eleição 2018
Fonte: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/eleicoes-2018-datas.ghtml

O PT manteve-se estável, pois o impacto negativo dos casos de desvio de verba e improbidade revelados pela Lava Jato foi sentido nas eleições de 2016. O ônus em 2018 veio para o MDB e PSDB, partidos envolvidos em diversos escândalos de corrupção cujos casos foram publicados amplamente somente depois da exposição petista de 2016. Caciques como Romero Jucá e José Serra mal apareceram no cenário nacional. O próprio Aécio teve que se rebaixar para tentar ser salvo pelo foro privilegiado (estratégia que deu certo). 

Já o PSL quebrou recordes de votação em São Paulo com Eduardo Bolsonaro para federal e Janaina Paschoal para estadual, ambos próximos da casa dos 2 milhões. A insatisfação popular elegeu os dois filhos de Bolsonaro aumentando o patrimônio da família, impulsionou o partido, a eleição de vários militares e também trouxe Alexandre Frota. Na verdade, não existe a necessidade de um golpe militar, pois os mesmos estão voltando ao poder por meio do voto. Desde Marechal Deodoro até o Capitão Nascimento, eles sempre estiveram presentes. O problema está na radicalização, não na eleição em si dos militares. Uma ditadura institucional não seria novidade na América Latina e é preciso lembrar que está sendo feita pelas mãos do povo.

Resultado de imagem para eleição 2018
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/07/veja-calendario-das-eleicoes-2018.shtml

Metade dos estados já definiram questão em primeiro turno para governador. Destaque para a manutenção do PT no Nordeste e as surpreendentes campanhas de Márcio França em São Paulo e Witzel no Rio de Janeiro levando as disputas para o segundo turno. Menções honrosas de um modo geral para as campanhas do PSOL, PDT, REDE e NOVO que ampliaram os debates e opções sem apelar para o extremismo e/ou baixaria.

Quando o resultado é favorável ninguém questiona as urnas, do mesmo modo quando um time é campeão ninguém reclama do árbitro. O fato da maioria decidir um rumo não significa que esse caminho seja o melhor. O século XX já mostrou que a concordância plena, irrestrita e totalitária é capaz de causar grandes danos. A divergência e diálogo são essenciais para a construção de uma relação saudável. O novo traz convulsão e euforia no primeiro momento, mas as consequências podem ser trágicas. Se mudou para melhor ou pior é uma resposta que virá consolidada no final de 2022. Latino é assim, gosta de emoção em detrimento da razão, deixa tudo para depois, para a última hora, no último capítulo da novela.

A tal da representatividade ficou de lado, talvez para depois. Em um país cuja maioria é pobre, negra e feminina há um certo descompasso com os eleitos e o responsável é o próprio cidadão. Não adianta se iludir: enquanto o sistema estiver assim estruturado não haverá mudanças profundas. Enquanto isso o voto continua obrigatório, as candidaturas continuam atreladas aos partidos, os filhos continuam herdeiros políticos, as reeleições continuam para a manutenção do poder, as filas continuam para a votação em um sistema cujo cidadão elege o senhor que irá comandar o barco pelos próximos anos. Trata-se de uma relação de submissão, desigual e restrita a um determinado período, sem participação e deliberação de fato. Os generais continuam na confortável sala de comando enquanto soldados e militantes morrem nas ruas. Quem quer a paz?

domingo, 30 de setembro de 2018

Reflexão sobre o 7 a 1 político

A relação entre política e futebol é grande e estreita conforme já demonstrado em post anterior. Fanatismo da torcida (eleitores), agrupamento de uma parte de semelhantes dentro de um mesmo time (partidos políticos), transformação da paixão (ideologia) em consumo e marketing, compra de jogos (e votos), corrupção nas instituições (CBF, FIFA, PSDB, MDB, PP, PT, etc), copa a cada quatro anos (igual as eleições federais), estádios superfaturados sem utilidade pública ou privada (elefantes brancos), obras intermináveis e por aí vai. Mesmo assim tanto o futebol quanto a política são capazes de fornecer meios para o desenvolvimento humano.

Todo dia há um novo 7 a 1 no Brasil e agora na reta final dos campeonatos, assim como da eleição, é importante refletir sobre presente, passado e futuro no tocante a resultados e conquistas. Tendo como base a fatídica semifinal entre Brasil e Alemanha na Copa do Mundo de 2014, será traçado um paralelo-comparativo para análise do contexto atual. O primeiro gol (erro) é achar que política só é feita no período eleitoral. Do mesmo modo que o mundial de futebol é consequência do trabalho de quatros anos, assim também é com a política. Simplesmente votar e reclamar não resolve problemas.

Fonte: https://diplomatique.org.br/produto/poster-edicao-marco-2018/

O segundo erro (gol) é culpar somente a classe política. É impossível desfazer o vínculo entre legislativo, executivo e sociedade. Cobrar os eleitos sem cobrar boa conduta de si mesmo e do próximo para com a coisa pública é um cartão vermelho de prepotência e falta de autocrítica. Nós também fazemos parte do jogo, nós também somos culpados. Do mesmo modo que é a torcida que paga ingresso, compra camisa e ajuda o time a vencer, assim é com o cidadão. Só vaiar e xingar sem cantar, aplaudir e incentivar não leva time algum à vitória.

O terceiro gol (erro) é achar um culpado para tudo e para o todo. Não adianta mandar o técnico embora sem mexer na equipe do mesmo modo que não adianta impedir somente o presidente se os demais continuarão com a prática de ilícitos. A falha conjuntural não é de um só, seja treinador, atacante, presidente ou partido. Em contrapartida, o quarto erro (gol) é buscar um herói para resolver todos os problemas com um chute ou com um passe de mágica. Do mesmo modo que não existe um só culpado também não existe um salvador da pátria. Personificar o erro é uma falha nas duas faces.

Fonte: https://orelhasdevidro.com/2018/06/14/futebol-e-politica/

O quinto gol (erro) é ser o dono da verdade. Sabe aquele cara mala que sempre tem razão? Sempre sabe qual o modelo certo do time jogar, sempre sabe quem o técnico deve escalar, sempre acha que o seu voto é o melhor e que todos os outros estão errados. E pior: quer impor as suas vontades e supostas razões para o demais. Assim já termina o primeiro tempo levando uma goleada de 5 a 0 jogando em casa. Calma caro leitor que ainda tem o segundo tempo.

Apita o árbitro, mas é sempre goleada no Brasil. O sexto erro (gol) não demora a acontecer: é a falta de diálogo, a falta de respeito para com a opinião alheia, o preconceito para com a torcida adversária, a ignorância ao usar a boca e os dedos e se esquecer de usar os dois ouvidos e o cérebro. É a ofensa para com o diferente, é não resolver o problema com conversa partindo para o confronto com quem está do lado oposto ou com a camisa de cor diferente.

discutir politica e diferente de discutir futebol - Política e futebol: ‘Com brasileiro não há quem possa’ Por Carlos Lopes
Fonte: http://www.polemicaparaiba.com.br/politica/politica-e-futebol-com-brasileiro-nao-ha-quem-possa-por-carlos-lopes/

O sétimo gol (erro) está na não fiscalização, na apatia após a decepção do resultado, no abatimento do revés sofrido. É ligar o botão do "tanto faz" e copiar o errado mesmo sabendo que aquilo não é certo, é fazer porque todos estão fazendo, é furar a fila porque todos furam, estacionar em vaga proibida, passar o sinal vermelho, pegar para si o que não lhe pertence configurando apropriação indevida de bens. Tornar a corrupção uma prática comum presente na rotina do cidadão brasileiro. Uma goleada, verdadeiro massacre.

Resta um gol no placar. Um a favor depois de sete contra. É o gol da capacidade de renovação, da segunda chance. É o gol que resta, que sozinho pode não significar muito, mas é o gol que permite corrigir erros, parar com as más práticas. Pesquisar mais, analisar melhor. É o gol que pode representar uma melhora no futuro. É o gol do voto consciente visando não só a si mesmo e sim o bem comum. É a vergonha que leva à reflexão e avaliação servindo de combustível para o aperfeiçoamento. Afinal, a união faz a força.

Briga na arquibancada, na própria torcida, no campo com o apito final do juiz, no término da eleição. É preciso aprender a perder para vencer na etapa seguinte. A política está em tudo, inclusive no futebol. Não dá para apagar o Mineiraço de 2014 assim como é impossível deletar o Maracanaço de 1950. Não dá para apagar a ditadura militar de 1964 assim como é impossível deletar os casos de corrupção. É preciso aprender com os erros passados para a construção de uma sociedade mais civilizada. Não adianta protestar contra a corrupção com o logo da CBF no peito.

A culpa não é do futebol do mesmo modo que a culpa não é da política. Todo dia há um novo 7 a 1 nas escolas, postos de saúde, delegacias. Às vezes o problema está no esquema tático: ao invés de 3-4-3 funciona melhor o 4-4-2. Às vezes o problema está na sede pelo poder, na reeleição, no voto obrigatório, no sistema de troca de favores, no foro privilegiado, na discrepância de salários, na marginalização do ensino, no sucateamento dos hospitais. Às vezes o problema é o sistema que corrompe e não a política em si que traz diversos avanços para quem a utiliza bem.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Reflexão sobre o voto útil e a terceira via

Uma chuva de pesquisas de intenção de votos para os cargos majoritários (maioria dos votos sem necessitar do quociente eleitoral) cai sobre o eleitor. Senador, governador e, sobretudo, presidente. Semana passada o ex-presidente FHC (Fernando Henrique Cardoso) soltou uma carta ao público refletindo sobre a possibilidade de uma união do centro por meio do voto útil em prol de uma terceira via. Portanto, a reflexão sobre tais temas se faz relevante.

A fonte primária para o voto útil (e consequente construção de uma terceira via) são as pesquisas divulgadas amplamente todas as semanas. Sobre as pesquisas eleitorais há de se ressaltar que os respectivos resultados representam uma fotografia do que já passou tendo-se em vista que a divulgação se dá em um momento posterior ao recolhimento dos dados. 

É preciso destacar que as informações ali contidas não retratam uma verdade absoluta estando sujeitas a mudanças ao longo do tempo. Fatores como debates, discursos, entrevistas, propagandas e denúncias podem interferir diretamente no processo de consolidação do voto. As próprias pesquisas podem influenciar na decisão dos cidadãos não cristalizados.

Fonte: http://dagobah.com.br/cinco-mitos-sobre-partidos-politicos/

O voto útil é aquele que representa uma forma de combater o êxito de uma campanha que não agrada determinado eleitor. Portanto, trata-se de uma estratégia que visa enfraquecer um oponente ao invés de reforçar um posicionamento. A grosso modo seria agir movido pelo o que não gosta. Isso não significa necessariamente abrir mão de uma campanha que o representa, pois o indivíduo pode saber o que não quer mesmo sem saber o que quer. Neste caso, o voto útil se aplica perfeitamente. 

O risco está em definir o voto com base em dados que nem sempre representam a realidade. O número de indecisos e abstenções são fundamentais nos cálculos e projeções para um eventual segundo turno. A tentativa de maximizar o voto com base em uma perspectiva futura esvazia os figurantes impedindo-os de uma maior relevância. Tal cenário pode não se concretizar, sobretudo devido ao fato das pesquisas serem quantitativas. Mesmo seguindo as normas científicas, o método quantitativo isolado não é capaz de contemplar uma abrangência social. O ideal é equilibrar pesquisas quantitativas com qualitativas, conforme já mencionado em posts anteriores.

O recomendado é votar naquele candidato/partido que melhor representa os programas desejados (caso tenha). As plataformas de governo escolhidas devem ser aquelas cujo eleitor se identifica, pois o fruto de sua decisão tem o prazo de oito anos para senador e quatro para os demais cargos eletivos. Abrir mão daquilo que acha certo para o duvidoso pode gerar arrependimento em um curto período de tempo. A melhor alternativa é aquela cujo voto faz com que o eleitor fique de consciência tranquila consigo mesmo.

Partidos receberão R$ 1,7 bilhão para campanha eleitoral, informa TSE
Fonte: http://www.oobservador.com.br/noticias/partidos-receberao-r-17-bilhao-para-campanha-eleitoral-informa-tse,23429.shtml

A terceira via ganhou força devido à polarização política na qual o país está submerso desde 2014. Um eventual segundo turno presidencial entre Haddad e Bolsonaro dificultará a governabilidade de quem quer que seja, pois a rejeição já é grande de ambas as partes. Independentemente de quem vença nessa situação, a polarização política permanecerá ultrapassando as barreiras de 2018. Nesse sentido, a terceira via seria um modo de favorecer outro candidato, preferencialmente o terceiro colocado que no caso é Ciro Gomes para romper a dualidade antagônica existente. O intuito é nobre do ponto de vista de pacificação nacional, mas o voto útil em prol de uma terceira via não garante a vitória desse determinado candidato podendo resultar em uma fragmentação maior após a desconstrução entre candidatos que poderiam ser aliados no segundo turno.

Existem diferenças fundamentais entre os dois primeiros candidatos: Bolsonaro questiona a urna antes do resultado, mesmo tendo sido eleito pela mesma por quase três décadas. O seu vice, um general da reserva, cogita um autogolpe se necessário para a elaboração de uma nova constituição por notáveis, deixando a sociedade e seus representantes às margens do processo político. A incerteza da campanha extremada do PSL (Partido Social Liberal) põe em risco a manutenção da dita democracia brasileira. Ou seja, de uma oligarquia representativa corre-se o risco de uma tirania personalista.

Já a campanha do PT (Partido dos Trabalhadores) representa o respeito às normas que aí estão. Exemplos não faltam, o que faz com que a campanha de Haddad transmita maior segurança e estabilidade política: Dilma sofreu o impeachment e o acatou, Lula foi condenado e responde preso mesmo sem ter sido transitado em julgado, entre outros casos. Portanto, a campanha do PSL é uma antítese extremada daquilo que representa o seu opositor, por mais erros que o partido deste possua.

Fonte: https://portalcorreio.com.br/saiba-quais-partidos-ja-definiram-apoio-para-a-disputa-pelo-governo-do-estado/

Trata-se de um equívoco grotesco colocá-los como opostos simétricos espelhados dentro do espectro político porque o PT está para uma social-democracia de centro-esquerda enquanto o PSL baseia-se em um salvador da pátria radical e imprevisível de extrema direita. Enquanto o líder das pesquisas foca na questão da segurança explicitando déficits nas demais áreas, as outras campanhas possuem plataformas diversas. Portanto, a questão em si não é a transferência de votos ou uma via alternativa, mas sim a perda de valores. Cada escolha uma sentença.

O voto útil para favorecer uma terceira via é uma estratégia com base nas pesquisas vislumbrando um futuro incerto. É uma ferramenta legítima no sistema eleitoral cujo peso duradouro pode cicatrizar feridas ou abri-las ainda mais. Antecipar um eventual segundo turno pode significar abandonar boas ideias em prol do menos pior. O brasileiro dá grande destaque para a cadeira presidencial, mas este não é capaz de governar sozinho. É preciso equilibrar as atenções para todas as cadeiras disponíveis que serão escolhidas nas urnas e gastar energia naquilo que acredita ser o melhor para a sociedade, sobretudo em um momento tão frágil como o atual.